Doce vingança

656
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo

O despertador tocou muito antes do que deveria, mas também tanto fazia. Mal tinha pregado olho nessa noite. O mesmo vinha sucedendo desde há várias noites. Saltou da cama com aquela energia típica de uma adolescente e invulgar para os seus 40 anos. Olhou pela janela. Estava escuro lá fora. O sol ainda ia demorar para dar o esperado colorido ao dia. Felizmente, tinha parado de chover. Acendeu um cigarro. Tinha decidido deixar de fumar fazia muito tempo, mas nunca tinha passado disso mesmo, de um pensamento por concretizar.

Ana, aquela beleza selvagem à qual ninguém ficava indiferente. A sua passagem suscitava amores e ódios, deixava marca em tudo o que com ela se cruzava. Dona de uma personalidade dominante e misteriosa, incrivelmente sedutora, olhar penetrante capaz de gelar ou incendiar. A farta cabeleira comprida, escura e brilhante, acentuava a beleza do seu rosto e contrastava com a clareza do olhar. A boca bem delineada deixava adivinhar um bonito sorriso que, por vezes, parecia indecifrável. Era agora uma fortaleza intransponível, mas nem sempre fora assim. A vida transformara-a e a sua doce vingança era, agora, a sua nova realidade.

Despiu-se, vislumbrou a sua silhueta por breves instantes no espelho, e sorriu. Agora gostava do que via refletido no espelho. Para trás tinham ficado as marcas que lhe faziam insistentemente lembrar um passado distante, repleto de violência, que tentava apagar da sua memória.

— Maravilhas da cirurgia estética. — Ana murmurou. — Pudesse existir o mesmo remédio para apagar da mente o que se apaga do corpo!

Suspirou e entrou no duche, deixou a água quente do seu banho matinal inebriar-lhe os sentidos, envolvendo-se no aroma doce da espuma que lhe acariciava o corpo suavemente.

Dentro de algumas horas, a sua festa iria começar e até lá iria continuar a concentrar-se para que nada fosse deixado ao acaso e o seu ressurgimento ficasse marcado na história daqueles que, um dia, a julgaram ter destruído.

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorApaixonaste-te por mim, ou por quem querias que eu fosse?
Próximo artigoRenascer das cinzas
HELENA ISABEL, a misteriosa
Nasceu em dezembro de 1983. Diz-se uma «exploradora da vida». Gosta de ler, de escrever e de pintar. Não da pintura dos guaches e dos pincéis. Mas da pintura com as palavras. É apaixonada, irreverente e sensível a tudo o que a rodeia. Prefere um segundo de realismo a uma eternidade de sonhos.