A minha terra

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Fotografia © Júlia Domingues | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Júlia Domingues | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

É em agosto, por excelência, que vamos à terra. Não sei como se passa no resto do mundo, mas aqui, neste cantinho do nosso planeta, é em agosto que se vai à terra. Os nossos emigrantes já não se fazem acompanhar com o tão característico garrafão de vinho,  amarrado ao tejadilho do carro —, mas continuam a escolher agosto para virem usufruir, orgulhosamente, do que, durante o resto do ano, não podem fazer.

Durante o resto do ano, não há tempo. A prioridade é poupar, para se conseguir ir à terra em agosto. Até porque a vida, em agosto, também vai de férias. Em agosto, a vida deixa de ser ingrata e permite-nos, realmente, viver. Tudo, ou quase tudo, é permitido. E nós, os que vivem por cá, também guardamos para agosto o ritual de abrir as janelas e colocar os tapetes a arejar nas varandas. Onde? Na casa da terra, claro.

A minha terra não é diferente. E, embora tenha nascido na capital, acredito, piamente, que isso foi apenas um erro geográfico. Vou à terra, desde que os meus pais disseram, pela primeira vez, a seguir àquele 9 de julho:

 Temos de ir à terra mostrar a menina à família!

E é assim que eu começo a ir à terra. Desde que nasci.

A minha terra — que, na verdade, é apenas a terra dos meus pais — fica para lá de 3 horas de distância de carro. Terras de Bouro, Gerês, é como lhe chamam. Tempos foram em que, para irmos à terra, tínhamos de sair de casa às 4 da manhã. Com sorte, chegávamos para almoçar com a família — que, previamente, já havia preparado um arroz de frango. Caseiro, claro! Ir à terra é dar cheiro ao sentir. Por exemplo: na minha terra, as lareiras estão sempre acesas. De inverno, servem para aquecer as casas. De verão, servem para fazer o café de cafeteira. Na minha terra, todos somos da família.

 Vem cá dar um beijinho ao primo!  Frase que vamos ouvir 98 vezes, num espaço de 3 dias.

Na minha terra, é obrigatório fazer-se a visita guiada à casa dos familiares, para que eles nos confrontem com as mesmas perguntas e afirmações, ano após ano.

 Então? Já casaste, minha filha?

 ‘Tás magrinha. Não deves comer nada de jeito lá, por lisboa. Aquelas comidas não prestam!

É isto que nos dizem, mesmo que estejamos umas lontras. A preocupação há de ser sempre superior ao que os olhos permitem ver.

Na minha terra é, expressamente, proibido sair de casa de alguém sem ter ganho, no mínimo, 5 kg. Por mais humilde que seja a casa, passar a porta de entrada é sinónimo de ter de enfrentar um prato de presunto, dois de queijo, uns quantos chouriços e salpicões e tudo acompanhado com broa de milho e regado com um, reluzente, vinho verde  servido, genuinamente, numa malga. E o mais preocupante disto tudo é que sabemos que este cenário se vai repetir umas cinco vezes, numa só tarde.

A minha terra cheira a verde! Daquele verde que entra pelos olhos dentro, numa quantidade de cores infindável. A minha terra sabe a vinho verde, a broa de milho e a presunto! Sim. São, exatamente, os mesmos ingredientes de que falei há umas linhas atrás. Na minha terra, os galos levantam-se às cinco da manhã (ou antes). E os mais velhos, denunciando as marcas de uma vida de campo, onde se trabalha de sol a sol, tratam dos animais antes de tratarem de si. Na minha terra, vai-se à missa ao Domingo. Nós não! Nós vimos da capital e a tradição já não precisa de ser o que era.

Na capital, saímos, aos fins de semana, para irmos a uma discoteca ou a um bar. E quem sai, por norma, é a malta mais jovem. Os outros já não têm idade para isso. Na minha terra, em agosto, toda a gente sai. As romarias estão enfeitadas à espera de todos. Todos, sem exceção. Os mais velhos regem-se pelo sagrado. Os mais novos procuram o profano. Na minha terra, os santos padroeiros ouvem as preces dos seus fieis. E, em agosto, é a altura de retribuir a ajuda outrora solicitada. A minha terra tem sabor a dança. As concertinas são acompanhadas por castanholas — que marcam o tempo, compassadamente — e as cantadeiras começam o seu cantar ao desafio. Na minha terra, devolvemos os mortos às origens e passamos a ir, fielmente, ao cemitério chorar a nossa perda.

Na verdade, esta é apenas a terra dos meus pais. Eu já sou filha da cidade. Venho de outras criações. Mas sentir, desde que nasci, o entusiasmo, a felicidade, a paz que é vivida por quem chega à terra, todos os anos, e corre para os braços dos pais já velhos, dos primos, dos familiares; ver a satisfação com que se bebe uma malga de vinho; sentir a felicidade em cada naco de presunto, que se come; e ver a genuinidade de um sorriso, em cada abraço trocado, faz-me ter a certeza de que ter nascido na capital foi, realmente e apenas, um engano geográfico.

E, por vezes, a felicidade é tão simples ao ponto de saber que, daqui a duas semanas, vou, finalmente, à terra.

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JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.