O quarto de hotel

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Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Tinham decidido seguir caminhos separados já fazia muito tempo. Uma eternidade, que não se contava no calendário, mas que ficava marcada de uma forma que só eles sabiam.

Quando as saudades apertavam (e apertavam muitas vezes), bastava uma mensagem com um simples «estás bem?» para sossegarem os corações. Evitavam ver-se, embora, muito de vez em quando, precisassem de alguns minutos para se olhar nos olhos e apenas sorrir e inspirar o cheiro um do outro. Nunca passava disso, de breves momentos, espaçados no tempo.

Ele seguia pela vida o melhor que podia e sabia. Ela colecionava paixões a que nunca chamou amores.

Um dia, uma mensagem diferente. Não dizia «estás bem?». Perguntava: «Vens?» E ela foi, sem hesitar. Iam poder voltar a ser apenas ele e ela. Iam poder fugir do mundo que os aprisionara em jaulas separadas, para voltar a partilhar um mundo que era só deles e para eles.

E pareciam crianças num passeio da escola, e pareciam adolescentes a viver o primeiro amor, e pareciam adultos felizes e apaixonados, como sempre foram quando estavam juntos! Ela era feliz ao lado dele, passasse o tempo que passasse, fosse em que espaço fosse, durasse o tempo que durasse! Ele voltava a saber o que era a felicidade no sorriso dela, no cheiro do seu cabelo, no abraço apertado que lhe sabia a vida…

Mas algo mudara. Chegou a noite e o quarto de hotel. Nunca tinham estado juntos num quarto de hotel. Nunca tinham estado juntos assim, como dois amantes num encontro furtivo e fugaz. E, por muito que os corpos se desejassem, por muito que se ansiassem num reencontro que tantas vezes imaginavam em segredo, o seu amor nunca fora um amor de corpo. Sempre fora um amor de alma. E as almas amam-se mesmo sem se tocarem, as almas amam-se muito para além do toque…

Voltou a sentir-lhe cada pedaço de pele, voltou a arrepiar-se com o toque das suas mãos, voltou a desejar cada movimento do seu sexo, mas não ali, não num luxuoso e frio quarto de hotel.

Naquela noite houve sexo, como havia sempre que ele procurava o cheiro do cabelo dela em outros corpos, como havia sempre que ela sentia prazer e nada mais com outros homens. O seu amor não se satisfazia num orgasmo. A sua saudade não se saciava entre quatro paredes. Amavam-se. Iam sempre amar-se e, por isso, jamais poderiam voltar a juntar os corpos.

Tinham decidido que os seus corpos seguiriam caminhos separados, que apenas os seus corações e a sua alma os manteriam unidos num amor que só eles sabiam existir. Um dia, os corpos voltariam a juntar-se, na eterna valsa que prometeram dançar…

O amor não se confina a momentos de prazer num qualquer luxuoso e frio quarto de hotel!

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ANABELA MATA, a bella
Ela é uma mulher ativa, vegetariana e adepta da vida saudável. Por isso, adora cozinhar, dançar, viajar e, sim, escrever — para ginasticar as emoções. Escreve com o coração: esse, que sente, ama, sofre, é feliz. Adora sorrir. Quase se poderia dizer que ela é a Bella porque é assim que vê a vida.