Estou destinada a ser obesa

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Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Estou destinada a ser obesa. Ou não fosse eu reunir três fatores que favorecem essa condição: ser viciada em comida, odiar fazer exercício físico e a genética da minha família!

Ora bem, até aos meus 12/13 anos comia o que queria e era magra. Maldita genética quando assim deixou de ser. Nunca gostei de fazer exercício físico. Aliás, na escola a minha pior nota era a educação física. Até que um dia cheguei aos 90 Kg. Apercebi-me do meu estado lamentável quando já nada me servia. Quando, nas lojas normais, já não conseguia comprar nada que me servisse. Quando só conseguia vestir calças elásticas. Bem, já perceberam a ideia.

A realidade é que, quando estamos assim, com excesso de peso, não temos essa noção. A não ser que nos comparemos com fotografias antigas.

Decidida a emagrecer, inscrevi-me num ginásio. Tal foi o meu azar, caí numa escadas e fissurei o osso do coxis. Ora bem, impossibilitada de me mexer, tive que fechar a boca. Afinal, eu sabia que estava obesa porque, durante vários meses, tinha comido este e o outro mundo. Foi esta a minha primeira dieta. Resultou. Emagreci. E fiquei escandalizada, quando comparei o antes e o depois. Não tinha mesmo noção de que estava gorda.

A partir daí, começou a luta, diária, para manter o peso. Ou melhor para não chegar, outra vez, aos 90 Kg. No inverno, engordava sempre 2 ou 3 Kg. Chegava a primavera, fazia dieta. Aliás, desde essa altura que estou de dieta.

Determinada a deixar de sofrer com o que comia, decidi começar a praticar exercício físico! Ora bem, o único desporto de que gosto é ténis. Mas é preciso correr e eu não gosto de correr. O meu professor está sempre a gritar-me: «Carina, mexe os pés!» O ténis, duas vezes por semana, não surtia efeito.

Assim, no último ano inscrevi-me num ginásio. Determinada e assídua, pensava: como agora sou uma pessoa ativa, posso comer o que quiser. Melhor, eu pensava que, se estava a sofrer a fazer exercício, não tinha de o fazer com a alimentação.

Sabem o quanto aqueles relógios das máquinas me atrofiam? Cada minuto ali equivale a dez quando estou numa esplanada a beber cervejas e a comer amendoins. O tempo não passa! Enfim, são momentos de tortura. Acreditem! Quem gosta de fazer exercício? Não acredito que haja alguém, nem aqueles que supostamente são viciados.

Após um ano no ginásio, não perdi nem uma grama de massa gorda. E ainda aumentei de peso, porque aumentei a massa muscular. A parte positiva deste processo foi que, no inverno, não aumentei a massa gorda, como era recorrente.

Depois disto, cheguei à conclusão de que, para alcançar o meu peso ideal, tinha de fazer dieta e exercício. Mas porque merecia eu tal sofrimento? Dieta e exercício! Ninguém merece.

Estão à espera que eu vos diga que a luta terminou e que eu estou magra para sempre? Nada disso. Pessoas, como eu, têm que pensar nestas questões o resto da vida. Porque, assim que nos viramos para o lado, uma grama aloja-se no nosso corpo.

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.