Apaixonaste-te por mim, ou por quem querias que eu fosse?

287
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo

O que nos faz pedir um beijo a uma pessoa e a outra dizer «desculpa, mas só te vejo como amigo»? O que nos faz ficar com frio na barriga, quando aquela pessoa se aproxima? Porque não conseguimos nós articular uma frase completa, sem gaguejar, quando apenas queríamos dizer: «Olá! Tudo bem?» No fundo, o que nos faz apaixonar por alguém específico?

A ciência resolve metade da equação, quando nos diz que existem elementos químicos e genéticos, que contribuem para uma maior predisposição natural entre dois seres. É isso que nos torna compatíveis. Perfeito. Mas e o resto? Se esta equação fosse assim tão simples, já existiriam milhares de empresas a fazer estudos de mercado para nos vender o par ideal.

— Temos, aqui, a oferta ideal para si. Tem um período de fidelização de 24 meses. E, se não estiver satisfeita, no final desse período, pode rescindir o contrato.

O certo é que, infelizmente, muitos de nós rescindimos o contrato ainda durante o período de fidelização. O motivo? Costuma existir uma lista considerável de razões. No entanto, quer-me parecer que o principal motivo é aquele que diz que «o produto não correspondeu às expectativas».

E, com isto, acabamos por chegar ao cerne da questão: as expectativas.

Quando nasce um interesse exacerbado por alguém, em detrimento das demais pessoas, tudo nos parece perfeito. Queremos saber dos hábitos, das rotinas, dos hobbies, da música que ouve e até do gel de banho que costuma usar. Queremos entrar no mundo do outro. Queremos muito. Queremos que esse mundo passe a ser, também, o nosso. Queremos experimentar novos sabores, novos ventos, novas cores, novos momentos. O que nos faz apaixonar, também, por essa pessoa é o que ela tem de diferente das demais. A sua forma de estar, a sua irreverência ou a sua serenidade, a forma como protege ou como nos quer proteger. Tudo isto funciona até ao momento em que, de forma (ainda) carinhosa, nos é dito que não cai bem irmos jantar, tantas vezes, com as amigas.

— Mas tu é que sabes! Se quiseres ir, vais! — E, esta frase fica a fazer eco, na nossa cabeça, durante um dia inteiro.

Alguns meses depois, já deixámos de fazer parte do jantar quinzenal, entre amigas, onde o tema é, quase sempre, inspirado na tão famosa série «O sexo e a cidade». Começam a existir, inevitavelmente, chamadas de atenção para o que devemos deixar de fazer e que comportamentos devemos começar a adotar. Aquele top, sem costas, que havíamos vestido, quando se conheceram, ficou esquecido no armário. Afinal, não era assim tão apropriado.

É, aqui, que começamos a confundir entre ajustar feitios e desajustar essências. É certo que assumirmos uma relação com alguém implica, normalmente, fazer alguns ajustes. Ajustes que deverão ter em conta o respeito e a vontade mútua. Ajustes que devem servir a duas e não a uma pessoa. Ajustes que não devem passar disso mesmo. Simples ajustes.

O problema instala-se quando os ajustes se transformam em vontades unilaterais. E, «em prol da relação» — como temos por hábito dizer —, aos poucos, vamo-nos esquecendo de quem somos. Aos poucos, passamos a ser apenas aquilo que queriam que fôssemos. Passamos a ser a personagem que criaram para nos representar. E nós, «em prol da relação», tentamos representá-la da melhor forma. Depressa passamos a saber o guião de cor.

Mas eu não quero ser uma personagem de uma história, que contracena com o par ideal. Quero ser protagonista da vida, onde o guião se constrói a duas vozes, mas o enredo é só um.

Por isso, te digo. Não foi por mim que te apaixonaste. Foi por alguém que tem talvez um código genético compatível com o teu. E isso a ciência explica. Mas aquela rapariga, por quem tu achas que te apaixonaste, não deixará aquele top, sem costas, no armário. Irá usá-lo no próximo jantar entre amigas, onde o tema será: «Porque não acreditamos em estudos de mercado?»

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorNós e a nossa letra
Próximo artigoDoce vingança
JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.