Não quero morrer antes do tempo

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Fotografia © Frank Park | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Frank Park | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Quem se julga perfeito acredita que a sua vida está completa. Só que quem se julga perfeito morre ainda antes de morrer. Respira, mas só para sobreviver. É um fantasma com pernas. Caminha pela vida sem deixar o seu rasto. É o herói a quem arrancaram o coração. Só vive de ideias. Já esqueceu os sentimentos.

Quem se julga perfeito arrumou a sua alma num armário. Atirou a chave ao mar. Decidiu navegar apenas nas poças de água que a maré deixa no areal.

Quem se julga perfeito deixou de ter sabor. Alimenta-se do passado e não sonha com as alegrias do futuro. Padece de uma doença sem cura que lhe suicidou a esperança. Quem vive sem esperança assassinou a criança que vive dentro de si. E também não deixa viver o adulto que devia fazer sombra a essa criança.

No seu jardim só existem ervas secas e as pedras soltas que saltaram dos caminhos que já ele percorreu. Chama rosas aos cardos e as perolas para ele são iguais aos calhaus. A perfeição impede-o de sonhar e de se vestir com a capa da ilusão. Dorme sem sonhar e vive sem amar.

Quem se julga perfeito é a antítese da natureza, alguém que virou as costas à beleza da vida. Já se esqueceu de que é a loucura que nos dá coragem. Que todos somos loucos porque construímos o futuro a partir dos nossos sonhos. E que não nos deixaremos morrer, enquanto o nosso coração bater.

Por isso, recuso-me a deixar que a perfeição faça parte dos meus dias. Não quero morrer, enquanto a minha alma tiver caminhos a desbravar em busca de sentimentos, que irão dar cor aos meus dias. Não quero morrer antes do tempo. Se preciso for, serei eu a matar tempo, com a loucura que me corre nas veias.

Enquanto existir em mim esperança, os dias sempre serão coloridos. A perfeição não passará de uma manhã de nevoeiro que tenta enganar o meu pensamento. O sol irá aparecer a meio da manhã, mostrando que é ele quem ilumina os meus dias. E, nessa hora, a perfeição vai voltar para o seu lugar, a gaveta onde se guardam as leis da sociedade.

Eu fiquei livre para sonhar.

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ANGELA CABOZ, a miúda gira
Nasceu em Tavira há 49 anos. Desde a adolescência que é uma apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cinema e pela música. Escreve sobre sentimentos e, nas palavras, reflete a maneira de ver e de sentir o mundo. Em 2014, realizou um sonho: a publicação do seu livro «À procura de um sonho». Desde então, tem participado em várias obras coletivas.