Fazes-me falta: ontem, hoje e para sempre

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Fotografia © Freestocks.org | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Freestocks.org | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

O que fazer, quando o chão ameaça ruir debaixo dos nossos pés? Quando vemos as fissuras a abrirem-se, descontroladas, por todo o lado? Quando tudo o que foi construído, em cima deste chão, corre o risco de desabar? Quando tudo pode ser engolido pelo abismo que há de surgir, quando o chão se rasgar? O que fazer para que o medo não tome conta de nós, para que não nos congele os movimentos? Como enfrentar uma tempestade e sobrevivê-la?

Na vida, deparamo-nos com tempestades que não temos como evitar, mas não é por isso que não nos perguntamos, vezes sem conta, se as podíamos ter evitado. Ninguém está preparado parar perder. Ninguém está preparado para perder tudo, ou quase tudo.

Será que podia ter-me preparado melhor para o que aí vem? Será que devia ter agido mais cedo? Afinal, esta tormenta já se fazia adivinhar… O que poderia ter feito de diferente? O que mais poderia ter feito?

A nuvem negra não passou. Já paira cá em cima e prepara-se para descarregar, quando se ouvir a sentença final. Quando a guilhotina cair. As noites serão inquietas. Os dias serão de batalha.

Como estancar, nas feridas que serão infligidas, a hemorragia da esperança? O que fazer para que o sentimento de impotência não me tolde os passos e me faça desistir? Como lidar com as portas que se fecharão na minha cara? Como não deixar que isso me destrua aos poucos? Como viver os dias na ânsia de querer fugir, de querer salvar-me? Como fugir ao desfecho que me aguarda? Como fugir antes de tudo desabar, antes de tudo se perder?

O corpo treme-me. A tensão apodera-se dos meus músculos. É tudo tão assustador. Os dias que se seguem serão de desassossego e de preocupação. De medo, muito medo.

Falta-me o teu peito para aí me esconder do medo. Só um bocadinho, o tempo suficiente para ganhar forças para enfrentá-lo. Fazem-me falta as tuas mãos para segurarem as minhas no caminho ardiloso que se avizinha em frente. Fazem-me falta os teus braços para me ampararem as lágrimas. Fazem-me falta os teus lábios para secá-las.

O que me trarão estes dias de incerteza? Uma nova descida ao inferno, ou uma nova oportunidade, um renascimento? Quantas vezes poderá uma pessoa renascer numa vida?

São os primeiros dias de um fim. Mais um.

Fazes-me falta… Ontem, hoje e para sempre.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.