Miss you

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Fotografia © Joshua Ness | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Joshua Ness | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

«Hello there, the angel from my nightmare / The shadow in the background of the morgue»

A música ouve-se ao longe. O mar bate nas rochas tão levemente, que parece seda a escorregar pelas tuas pernas. Sempre me vi só e só parece que ficarei. Mas aquela imagem não me sai da memória. Não nego que isto tudo mexe comigo, mas mesmo assim vou querer continuar o meu caminho. Comecei a sentir o que parecia uma voz doce, um som agradável que entoava uma melodia tão terna, que me arrepiou profundamente. Olhei à minha volta e não via nada. O mar estava mais calmo que nunca. Este som tinha tanta doçura que me atraiu até aqui, assim.

«Sabes, apetecia-me passar a mão na tua cara, olhar nos teus olhos. Mas tu e eu nunca vamos dar certo!» Estas palavras não me saíam da cabeça.

— Queres um conselho, Gonçalo? Não tenhas pressa. — A voz petrificou-me.

Apesar de serem descritas como terríveis monstros, estava à minha frente a mais linda criatura que alguma vez tinha visto na vida.

— Tu não devias estar aí e eu também não. — Saiu-me assim, numa voz trémula

— Porquê? Sinto o teu sofrimento, sabes?

— Como assim? Não me digas que consegues lêr o meu pensamento!

— Sou uma sereia. De que estavas à espera? Não desistas de lutar. Não baixes os braços.

Que sabia ela de mim? Que está ela a tentar? Sempre ouvi falar que o único jeito de derrotar uma sereia seria cantar, cantar melhor do que ela. Mas isto não podia ser real.

— Eu não pretendo invadir o teu espaço, mas achei que devia dizer-te isto. Estou aqui apenas para te ajudar.

— Tu não me podes ajudar. Aliás, ninguém pode.

— Porque é que recusas tanto? Tu tens um ar confiável, um olhar doce e terno, sorriso rasgado.

— Eu não te sei explicar! – Gritei tão alto, que o mar parecia ter recuado com medo.

— Eu sei que tu te julgas a pior escolha de alguém. — Dizia ela com a voz mais doce que alguma vez ouvira. — Mas não é isso que te vai impedir de sentir.

— É mais difícil do que tu pensas. — Tentava eu convencê-la. — Contar sonhos. Vê-los fugir um atrás do outro.

— Sabes, suspirava ela, por cada rei que morre é coroado outro logo a seguir. E tu não és obrigado a sentir o mesmo que os outros. Nem sequer nada parecido.

— Sim. Eu sei que não sou obrigado. Nem quero dizer que não possa vir a sentir. Mas não sei o que fazer.

A sereia deu um salto e mergulhou fundo, voltou à tona e sorriu para mim.

— Quando tiveres de descobrir o que fazer, isso acontece. Não feches o teu coração. Mas há um segredo muito importante. Tens de sorrir sempre, porque há um bicho mau chamado «medo», que gosta de roubar sonhos e, se sorrires, ele já não os rouba.

Ao fundo, a música continuava:

«Don’t waste your time on me. You’re already the voice inside my head (I miss you, miss you)»

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NUNO CORREIA, o desportista
Tem 36 anos. Nasceu em Coimbra. É um apaixonado pelo desporto e pelo ar livre. Descobriu o gosto pela escrita no dia em que deixou de acreditar no amor... Ou, aqui entre nós, talvez não.