Somos pertença do mundo

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Fotografia © Dave Meier | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Dave Meier | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Quando saímos de casa aos dezoito anos para ir estudar, ou noutra idade qualquer, já nunca mais voltamos. Voltamos para férias, fins de semana e festas de família e, embora permaneça o nosso espaço com as nossas coisas, somos meras visitas no espaço que outrora foi o nosso mundo. Já não pertencemos ali. Sentimo-nos distantes e alheios àquela realidade.

Passamos por outras cidades, por outras casas, por muitos sítios. E nunca mais sentimos, em nenhum destes espaços, aquilo que denominamos de lar. E temos esperança de que, no espaço onde deixámos o nosso mundo, na casa dos nossos pais, é onde nos sentimos em casa. Mas não!

E, então, entramos numa busca desalmada por um sítio onde possamos viver e que possamos sentir como nosso. Mudamos de trabalho, de cidade, até de pessoas… E a inquietação continua.

Nunca mais nos sentimos bem na nossa atual casa, no nosso atual trabalho, na nossa atual cidade. Passamos por muitos sítios, conhecemos muitas pessoas, achamos que vamos fazendo amigos aqui e ali, mas nada disso satisfaz, nada disso é suficiente, nada disso é profundo ao ponto de nos prender. Nada disso nos pertence. Sentimo-nos a mais. Sentimos que não nos identificamos.

E estamos sempre sozinhos, embora rodeados de pessoas. Quando verdadeiramente precisamos de alguém, resta-nos a dúvida. Quem está ali para ti? As pessoas desiludem-nos uma após outra. Os valores perderam-se no tempo. E chegamos a pensar que o problema somos nós. E provavelmente sim, porque somos insatisfeitos por natureza. Provavelmente não, porque temos uma visão aberta do mundo.

Adaptamo-nos, porque a certa altura tomamos consciência de que essa inquietação é interior. E, enquanto não mudarmos a nossa forma de sentir, podemos percorrer o mundo que irá permanecer em nós o sentimento de não pertença. Irá permanecer em nós o sentimento de querer estar noutro sítio que não aqui!

Já não pertencemos à casa dos nossos pais, nem da nossa família, e tão pouco pertencemos às casas por onde vamos passando ao longo da vida. E por onde passamos vamos deixando um pouco de nós. E por onde passamos vamos levando um pouco dos sítios, das pessoas e das vivências.

Talvez a inquietação que não nos permite assentar é também aquilo que nos faz feliz. Porque não queremos estar aqui, mas também não sabemos onde queremos ir. Queremos estar em todo o lado e, ao mesmo tempo, em lado nenhum. Porque não somos pertença de nada nem de ninguém, mas somos pertença do mundo!

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.