A Laurinha tinha manias

432
Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Cartaz © Laura Almeida Azevedo

A Laurinha era perspicaz, mas tinha manias. E ainda tem.

Num mail que me enviou, escrevera:

Desta vez, o seu mail teve o dom de me silenciar… não em pensamentos, mas pela verbalização! Os chineses têm um provérbio que diz «Quando uma mulher se calar é porque o mar ficou vazio». Temo, pois, que neste momento tenhamos um vasto areal no lugar do mar imenso a que nos habituámos!
… Mas que despudorado, Vasco! Fez-me corar!

Doce Laurinha:

Bebi o teu mail de ontem, as tuas palavras todas. E reli o meu. Parece que, de vez em quando, tenho recaídas. É caso para dizer que ainda uma não está curada e já caí noutra. Ou será exatamente a mesma?

E depois escrevi para ti:

«Dormem as estrelas nos espaços siderais.
E as notas de Beethoven acompanham os teus passos,
na dança erótica dos teus seios virginais,
apertados entre a raiva dos meus braços!»

Eu sei que andas em trabalho e hoje não era dia para distrações, ou era? Mas seria dia de shopping e de fumos de escape, se este dia fosse outro e tu não quisesses que ele fosse assim.

Já não sei se escrevo à Laurinha da gola de virados, se à Laurinha do chá de flores silvestres. Ou se estou a trocar tudo e nenhuma delas bebe o chá de rosas. Lembro-me vagamente do café das Rochas de onde já não olhamos o mar. E gostava de lá voltar contigo, para rirmos ao por-do-sol. Se achares que, além de louco, estou pior, diz-me.

Uma onda acabou de bater na rocha a desfazer-se em espuma. Sacudo o casaco e meto-me no carro. Está a ficar frio e começo a tremer.

Cheguei a casa. Apesar desta hora, tardia e sonolenta, não resisto a enviar-te duas palavras.

Talvez procure, como tu, «a doce sensação de aconchego que sentia quando afagava as cartas que escrevia…».

Desculpa a patetice, mas eu irei mesmo clicar no “Enviar”.
E desejar-te a continuação de uma boa noite.
Adeus, Laurinha.
Bj.
Eu.
Mais um beijo do
Vasco

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorUma carta de despedida
Próximo artigoA tua vida tem mais importância do que pensas
FERNANDO JORGE, o biólogo
Cozinheiro, aos 12 anos. Artista de teatro, fundador do grupo Madrugadores do Adro, em Ribeira de Frades, aos 16 anos. Praticante de atletismo na AAC. Professor na Escola Industrial e Comercial da Marinha Grande, aos 21 anos. Começou a escrever o livro Poemas de amor e de raiva, aos 22anos, e ainda continua. E continua.