Uma carta de despedida

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Fotografia © Florian Klauer | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Florian Klauer | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

«Eu não fui feito para este tipo de coisas.»

Estas palavras não me saem da memória. E ali estava eu, sem saber muito bem o que pensar. São noites atrás de noites, noites em claro sem saber o que fazer para dormir, sem saber se dormir é a solução para os problemas do mundo. Esta é só mais uma noite sem dormir. Olho para as estrelas e nem percebo como elas brilham, nem tudo o que elas fazem.

Queria que a noite não acabasse, que não acabasse nunca. Que o sol decidisse tirar férias e as palavras nunca se esgotassem com o cansaço e o sono. Desde aquela noite que senti que algo podia mudar na minha vida e, apesar de ter tentado não pensar que te podia amar assim, para sempre, por toda uma vida (porque uma vida é muito tempo), e por mais que tente, a verdade é que não consegui e nem consigo evitar apaixonar-me por ti.

— Muito mais importante do que o sangue, o oxigénio ou até mesmo o amor, é a esperança que nos mantém vivos. Repito isto constantemente.

Toda esta dor, toda esta complicação na minha cabeça tem de ter algum propósito. Um propósito evolucionário, digo eu. E eu vejo-me a reavaliar as escolhas que fiz, as coisas que devia ter feito de forma diferente ou melhor. Como se, ao perder tudo, entendesse finalmente. Mas, depois, penso que até nem faz mal sofrer, desde que se fale sobre isso. Não é uma fraqueza. Uma fraqueza é ter um problema, não o reconhecer e não o resolver. Pensas que esse sentimento pode ser temporário? Talvez! Mas lembro-me de que há toda uma sensação falsa de lucidez, que, por vezes, nos acompanha.

Não é o número de anos que vivemos que importa. As nossas vidas contam com uma série de momentos e nunca sabemos quando ou onde eles irão acontecer. Mas eles ficam connosco, marcam as nossas almas para sempre. E é quando a vida nos deixa de surpreender que realmente nos afeta, e o problema não é a solidão ou a perda. O problema é quando deixamos de ser a pessoa por quem alguém se apaixonou.

Lembro-me daquele dia, como se fosse hoje. Olhei, pela última vez, para os teus olhos. Os teus lábios apeteciam-me ainda como no primeiro dia que tocaram os meus. Olhaste para mim com aqueles olhos doces, esticaste a mão e deste-me uma carta. Era uma carta de despedida.

— Sei que não significará muito para ti — disseste com aquela voz doce meio embargada. — Mas significará muito para mim se ficares com ela.

— Eu não fui feito para este tipo de coisas.

— Eu sei. Eu percebi-te sempre. Não é que não tenhas sentimentos. É como se o volume tivesse sido reduzido. As vozes estão lá. Só tens de as ouvir.

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NUNO CORREIA, o desportista
Tem 36 anos. Nasceu em Coimbra. É um apaixonado pelo desporto e pelo ar livre. Descobriu o gosto pela escrita no dia em que deixou de acreditar no amor... Ou, aqui entre nós, talvez não.