Quatro estações

Fotografia © Olu Eletu | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Olu Eletu | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Já é verão! Sinto o calor. Ouço a brisa suave lá fora. As crianças riem e sei que correm! Abre a janela, por favor! Quero olhar lá para fora. Que maravilha que é fechar os olhos e sentir os raios de sol no meu rosto. Já vais embora? Fica mais um pouco.

Olho para o teu rosto e pareces tão triste. Não sei se fiz alguma coisa que te magoou. Tenho vergonha de perguntar. Olhas-me triste, dás-me um beijo e partes. Vou ficar aqui com aquelas antipáticas! Eu nem me lembro do nome delas! Argh! Que raio de emprego este! Devia ter-te dito que odiava este trabalho. Talvez assim não me olhasses com esses olhos. Talvez assim me percebesses. Vou ficar a olhar pela janela. Gosto de ver as crianças a brincar. Gosto de ouvir as suas gargalhadas. Não sei se alguma vez te disse que adoro as visitas que me fazes! Ah, e aquele livro que estavas a ler? Não me lembro se to pedi emprestado. Sei que estiveste horas a falar das personagens. O par era tão romântico! Falaste com tanto entusiasmo da rapariga que até senti ciúmes! Adoro quando sorris! E o som da tua gargalhada? Arrepio-me só de pensar nela! E, por falar nisso, já não te ouço a gargalhar há muito tempo! Que se passa contigo, Frederico? Já foste embora e eu nem me apercebi! Ainda sinto o beijo suave que me deste e sinto o calor das tuas carícias no meu rosto. Nunca foste de muitas palavras. Sempre foste de atos e é isso que me faz amar-te! Estás com problemas no trabalho? Queria tanto ajudar-te… Prometo que amanhã te faço rir! Vamos falar das nossas parvoeiras! E falar de livros, de histórias de amor ou até mesmo de terror! Não interessa. Interessa que vamos falar e rir! Gargalhar juntos! Vou dizer-te que te amo! Há tanto tempo que não o digo! É de mim ou no outro dia sussurraste-me isso ao ouvido?

O tempo passa tão rápido! Quando é que saímos juntos pela última vez? Não me lembro! Oh, estás a ler! Desculpa. Adoro quando me olhas assim, tão apaixonado! Mas continua a ler. Não te quero interromper. Estás a sorrir! Amo esse teu sorriso. Amo-te! Se não estivesses a ler dava-te um abraço! Ficava horas abraçada a ti, a sentir o teu calor. E até sei o que farias! Ias ajeitar-me o cabelo atrás da orelha, ias sorrir e depois davas-me um beijo na testa. Mas estás a ler! Olha, não é melhor fechares a janela? Ainda ontem era verão e já estamos no outono! Já não há tantas crianças lá fora. Nem te contei. Baldei-me ao trabalho e fui lá para fora com eles. Corri. Dei gargalhadas!

Mas que frio! Eu bem que esfrego os braços, mas o frio penetra-me nos ossos. Este casaco que me ofereceste é maravilhoso. Já nem me lembro de quando mo deste. Estás mais magro! Que se passa, Frederico? Ficas aqui a segurar a minha mão, sempre tão calado! Está tudo bem contigo? São problemas no trabalho? Eu compreendo-te. Tenho aqui uma colega que também é uma fera! Chama-se Madalena. Não te contei! É má, é mesquinha, finge-se minha amiga, mas sei que me quer lixar a vida! Quando vem ter comigo, ignoro-a! Mas não vamos falar dela. E se falarmos daquela viagem que queríamos fazer? Já viste como o tempo passa rápido? Falta um mês para o Natal! Nunca sei o que comprar e depois ando numa correria de última hora. Não te rias! Estás a lembrar-te da camisola com as renas que te comprei? Amo-te!

Vou até à janela. Está a chover. Sabes bem como adoro ver a chuva a cair! O vento a fustigar as árvores! As folhas a rodopiarem no chão! Mas hoje temos música? Não acredito! Vivaldi! Diz-me que foste tu que pediste esta música para me animar? Oh, meu amor, sim, eu sei o nome desta música! Calma, vou lembrar-me. Se fechar os olhos e ouvir bem estes violinos… Four Seasons! Se vieres à janela, verás como o vento dança ao sabor deste maravilhoso som! E as folhas? Sempre a rodopiar! Aposto que a Madalena vai odiar a nossa alegria! Este som dos violinos! Sempre gostei de violinos! Já te disse que andei a aprender? Desisti. Não sei porquê, mas desisti!

Com esta música só me apetecia estar em casa contigo! No nosso sofá, deitados, numa troca de beijos e carícias. Amo-te, Frederico. Amo-te muito! Mas estás tão distante! Oh, estás a ler. Desculpa. Vou ficar a ouvir a música. Se bem que só me apetece rodopiar ao som destes violinos. Oh, podíamos rodopiar os dois. Lá fora, à chuva. Já vais embora? Eu compreendo… Vou ficar aqui a ouvir o resto da música. Se conseguir escapar à Madalena, ainda vou até lá fora.

O tempo já aqueceu! Tenho a certeza de que posso fazer uma pausa de dez minutos! Vá lá, vamos beber um café! Depois vamos até aos jardins. Vamos apanhar flores! Margaridas! Posso sempre colocá-las nesta jarra! Vá lá. Podemos até correr descalços pela relva. Vais ler? Eu compreendo. E também te amo…

— Boa tarde, Frederico! Como está? — Olhou-o com pena. Há quanto tempo é que estavam naquela situação? Quatro estações! Um ano! — Um novo livro?

— Sim! — Suspirou. — A Fátima sempre gostou de ler. — Esboçou um sorriso triste. —Como é que ela está hoje?

Segurou-lhe na mão.

— Gostava imenso de lhe dar uma notícia diferente da de ontem! Mas infelizmente não posso mentir. Está igual. Há situações de doentes que ficam em coma anos e depois… — Ficou em silêncio, enquanto o via a carregar no botão do leitor de CD’s. — Vejo que seguiu a minha recomendação e trouxe música.

— Ela toca muito bem violino. Esta peça é de Vivaldi e é a sua favorita. Four Seasons! — Olhou para a doutora Madalena. — Precisamente o mesmo tempo que ela está presa nesta cama. Quatro estações!

A doutora rabiscou algo na ficha de Madalena.

— É primavera. Tempo de esperança, de renovações! Não perca esse amor que lhe tem. Porque é isso que a mantém agarrada à vida!

Frederico ajeitou o livro na mesinha de cabeceira. Acariciou a mão de Fátima, ajeitou-lhe o cabelo e deu-lhe um beijo na testa.

Vá lá, Frederico! Vamos até lá fora! Não perguntes à Madalena se posso. Ela vai dizer que não! Vá, vamos dançar ao som desta primavera! Já vais embora? Fica mais um pouco. Dança comigo. Eu compreendo. Vai lá! Mas promete-me que, depois, bailaremos descalços pela relva. Sim, também te amo!

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MARTA VELHA, a menina do caderno e do lápis
Ela é ativa q.b. — e há quem ache que o é até demais. É bem disposta por natureza e o sorriso é a sua imagem de marca. Por isso, ama sorrir e ama quem sabe sorrir! Adora ler — e há quem ache que lê demais, mas nunca se lê demais, pois não? E adoraaaaaaaaaaa escrever! Não perde um desafio e, por isso mesmo, veio parar aqui. E ainda bem.