Revivo-te nos meus sonhos

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Fotografia © Imani Clovis | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Imani Clovis | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Sonhei contigo. Há muito que não sonhava contigo. Não é que eu tenha muito o hábito de sonhar. Ou, se calhar, sonho e nem me lembro de que o fiz. Imergiste das profundezas do meu ser e tomaste, por instantes, o domínio da minha mente.

Não sei onde estava. Sei que era um lugar ao ar livre. Estava sentada, de lado — até nos sonhos não me sento direita —, junto a uma mesa. Escrevia num caderno que pousava sobre o meu joelho — até aqui nada de anormal. Havia mais gente. Não comigo, mas em meu redor.

Surgiste do nada, atrás de mim. Senti a tua presença. Não precisei de te ver para saber que eras tu. Os teus dedos percorreram-me as costas, levemente. Estava vestida, mas era como se tocasses diretamente na minha pele. Um arrepio pôs todo o meu corpo em sentido. Repetias os movimentos e acabei por desligar-me do mundo. Já não havia ninguém à nossa volta. A tua respiração aquecia-me o pescoço. Estavas tão próximo de mim.

Uma parte de mim estava incrédula. O que fazias ali? O que é que mudou, sem eu me dar de conta? Como é que era possível?

Absorvia aquele momento, quase siderada. Quando dei por mim, já estavas sentado ao meu lado. Atrevi-me a dar-te a mão e tu seguraste-a. O meu coração disparou numa corrida desenfreada. Não hesitaste. Não a rejeitaste. Aceitaste a minha mão na tua, onde já havia depositado o meu coração há muito.

Senti a minha mão na tua mão fria, os meus dedos encaixados nos teus dedos longos. A minha mão na tua fica tão pequena. Senti o teu aperto firme, de quem finalmente me aceitava na sua vida e não me queria deixar fugir.

Que voltas a vida havia dado sem me aperceber? A emoção tomou conta de mim. Não era possível. Apercebi-me que estava com medo. Aquilo não fazia sentido. Seria bom demais.

De repente, já não estavas ali. O mundo reapareceu em meu redor. Vi-te ao longe, de passagem. Fumavas, se bem que não fumas. Nem sequer olhavas na minha direção.

Acordei para a minha realidade. Acordei em paz, conformada, porque até o meu inconsciente já sabe serem impossíveis tais cenas. Mas eu não queria esquecer. Mais do que as imagens, não queria esquecer as sensações. Foi tudo tão real, tão vívido.

Talvez sejam as saudades, que teimam em não se acomodar, que se revoltam de vez em quando, cá dentro, libertando, na minha mente, este enredo sem nexo, quando estou mais desprevenida, mais vulnerável. «Lembra-te dele! Não te esqueças dele.»

Às vezes, pergunto-me se alguma vez sonhaste comigo. Se, nessa noite, não estaríamos a fazê-lo em simultâneo. Se, se eu te tivesse dado um beijo, o sentirias, onde quer que estivesses.

É pena que se esqueçam os sonhos. Pelo menos, alguns. Se pudesse, aprisionava-os num cantinho da minha memória para os rever sempre que quisesse, como se tivesse a assistir a um filme em primeira fila, com direito a reviver todas as sensações e emoções.

Foi há um ano que partiste… Só pode ser saudades.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.