Agora, já podes vir!

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Fotografia © Jan Vašek | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Jan Vašek | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Agarro no telefone. Verifico, uma última vez, que não tenho chamadas ou mensagens. Procuro, na mala, no compartimento do costume, os phones  — que insistem em aparecer, completamente, embrulhados em nós —, e escolho o modo aleatório das músicas que me irão fazer companhia. É final de tarde. O dia foi reservado para estar absorvida pelo trabalho, por uma ou outra mensagem, que vamos trocando com amigos ou família, para nos certificarmos de que tudo continua no seu caminho e para, de certa forma, continuarmos conectados com o mundo.

Mas é para agora que reservo o momento mais importante do dia. No final da tarde. Desço as escadas do prédio e a música vai dando as boas-vindas à minha chegada. Pede-me para entrar. Já estão à minha espera. Sem demoras, pego na bicicleta e coloco no GPS a morada pretendida. E eis que, com o sol, de final de tarde, a indicar-me o caminho, estou pronta para o encontro mais esperado do dia.

— Podes entrar. Fica à vontade. — É assim que me recebo.

É desta forma que me encontro comigo, ao final da tarde. Quando o sol brilha, mas já não queima; quando o cansaço espreita, mas ainda não pesa; quando a saudade convida, mas já não corrói; quando a esperança nasce e quando o sonho se alinhava.

E é aí, quando me encontro comigo, que meto conversa contigo. (Ainda) Não tens rosto. Os rostos do passado ficaram aí mesmo — no passado. O momento é de traçar novas linhas. De desenhar novos contornos de corpo e de apreciar novos aromas.

— Agora, já podes vir! — Digo-te, com a serenidade necessária de alguém que espera, sem pressa.

Voltar a encontrar-me, voltar a estar comigo, deu-me o privilégio de voltar a conhecer alguém, que, em tempos, deixara lá atrás. Amarrada ao passado. Agarrada à culpa do que não deu certo. Concentrada nos erros a não repetir. Enquanto assim foi, não estive comigo. Procurava e não me encontrava. Não sabia de mim, ainda que vivesse no mesmo corpo. Tempos houve, até, em que fugia do que me tornara. Nunca cheguei a odiar-me, mas também nunca apostei em amar-me. Fui ficando para trás. Fui ficando lá atrás.

E foi aí que, um dia, descendo as escadas do prédio — de phones postos, a ouvir a música em modo aleatório —, peguei na bicicleta para ir ao meu encontro. Não sabia muito bem o caminho, mas sabia o destino. Não sabia por onde começar, mas sabia como queria terminar. Não sabia o que me dizer, mas sabia ouvir-me. Já não sabia sorrir, mas sabia que queria parar de chorar. E foi assim que me voltei a encontrar. Agora, quanto mais perto fico de mim, mais tenho a certeza do que quero de ti. Porque só me reconhecendo estarei preparada para te querer conhecer. Só me encontrando é que conseguirei não te perder. Só me querendo é que, também, te conseguirei querer.

Por isso:

— Agora, já podes vir!

Deixarei a porta encostada. Quando vieres, não precisas de bater. Entra, apenas! Saberei que és tu. Como? Disse-me uma miúda, com quem me costumo encontrar, quase todos os dias, ao final da tarde — quando o sol brilha, mas já não queima —, a andar de bicicleta.

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JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.