À conversa com a Angela Caboz: «Amo-te, Miúdo Tonto»

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Fotografia © Angela Caboz | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

A Angela Caboz é uma das minhas desafiadas daqui, da plataforma Desafio-te. Além de algarvia, como eu, é também uma apaixonada por palavras. Escreve, como se costuma dizer, «com o coração nas mãos». Na maioria das vezes, escreve sobre o amor. De todos os registos literários, o seu preferido é a poesia. Muito recentemente, descobriu também o gosto pelas crónicas. Há, ainda assim, tanta poesia nas crónicas que escreve.

Foi em 2014 que lançou o seu primeiro livro: «À procura de um sonho». Desde então, tem participado em obras coletivas. Foi também depois do seu primeiro livro que se aventurou numa página de facebook: Angela Caboz – escritora. Também tem um blogue, onde publica desde dezembro de 2013. Assim que lá entramos, somos recebidos também pelos sábios excertos de William Shakespeare, Pablo Neruda e da nossa tão portuguesa Florbela Espanca.

O seu segundo livro já aí está. Chama-se «Amo-te, Miúdo Tonto», porque o amor é mesmo assim: delicioso, mas, por vezes, tonto, tão tonto. E não haveria melhor motivo do que este para uns minutos de conversa com a Angela.

P: Angela, olhando para trás, como descreves este teu percurso pela escrita e, no fundo, a importância que esta tem para ti?

R: Escrever foi algo que surgiu naturalmente na minha vida. Foi sempre, um pouco, a necessidade de soltar sentimentos que estavam dentro de mim. E, como nos tempos de escola era muito tímida, era mais fácil escrever. Nunca alimentei o sonho de, um dia, editar um livro. Até porque não costumava mostrar o que escrevia. Poucas eram as pessoas que sabiam. A grande maioria foi apanhada de surpresa com a edição do primeiro livro. O livro surgiu por insistência dos poucos amigos que sabiam da minha paixão pela escrita. Uma decisão que levou algum tempo e que foi tomada depois de ter escutado alguns comentários positivos, que me fizeram ver que, se calhar, não tinha nada a perder.

P: Lembras-te de quando começou a tua paixão pela escrita?

R: A paixão pela escrita começou na escola. Era tímida e, por isso, preferia escrever. Era sempre essa a maior critica que os professores me faziam. Lembro-me de que andava no 7º e 8º anos e de uma professora de português, num teste, nos ter apresentado um excerto da «Pedra Filosofal» para interpretarmos. E aquilo, para mim, foi o despertar do gosto pela escrita e, especialmente, pela poesia. Até a esse dia nunca tinha reparado num poema, mas aquele mexeu comigo. Fez-me pensar e acordar algo que existia, em mim, e que eu não sabia.

P: Sentes que houve algum texto, que tenhas escrito no início do teu percurso, que te tenha feito sentir, de forma clara, que, um dia, querias vir a ser escritora?

R: Não, claramente. Tudo começou com a «Pedra Filosofal». Depois, durante a adolescência fui escrevendo pequenas coisas, que entretanto se perderam. Houve uma fase, entre os 25 e 35 anos, em que pouco ou nada escrevi. O trabalho, o casamento e a filha absorviam-me todo o tempo livre. Só mesmo o gosto pela leitura é que se manteve inalterável nesse período. Se escrevi uma dúzia de textos, nesses anos, terá sido muito. Depois, comecei a sentir um apelo interior para escrever. Uma necessidade de soltar, por palavras, a minha maneira de sentir a vida. E foi aí que tudo começou — ou recomeçou.

Não há um texto que marque especialmente esse recomeço, porque ia escrevendo e guardando. Há um tema, sim, que é recorrente em mim. E que é o amor. Tudo porque o amor é a palavra chave para as nossas vidas. É ele que dá sentido ao nosso viver. E como, para mim, escrever só faz sentido se for com alma, para soltar sentimentos que me habitam o coração, esse é o meu tema preferido.

Quando mostrei os primeiros textos, fiquei surpreendida com as reações. Esperava ouvir criticas, porque achava que os textos não tinham qualidade e surpreendi-me com o facto de várias pessoas me terem dito que eram bons e que deveria continuar a escrever. Esses comentários serviram de incentivo para que continuasse e melhorasse o que escrevia.

P: Que escritores têm tido maior influência na tua escrita e de que forma sentes que te marcaram, não só enquanto escritora, mas até mesmo enquanto leitora?

R: Para mim, na poesia, Florbela Espanca, Fernando Pessoa e Pablo Neruda são os meus pontos de referência. Talvez Florbela Espanca e Pablo Neruda me influenciem no tema do amor. Não me identifico com eles tanto assim nos estilos, mas sim nos temas.

P: Numa frase: escrever, para ti, é…?

R: Escrever, para mim, é libertar os sentimentos que a alma esconde.

P: Se pudesses descrever o teu livro «Amo-te, miúdo tonto» numa só palavra, que palavra seria?

R: Paixão.

P: E porquê?

R: Porque é isso mesmo. É a história de uma paixão. Os textos estão interligados entre si e contam uma história, que o leitor poderá idealizar à sua maneira. Uma história de uma paixão entre dois seres que o destino juntou. A miúda sonhadora que encontrou, num homem amargurado, o amor que procurava nos seus sonhos. Um amor que lhes mostrava o outro lado da vida. Mas muito os unia e também muito os separava.

P: Em que dia vai ser o lançamento oficial?

R: O livro está disponível desde 15 de julho. Ainda não tenho agendada a data do lançamento oficial. Estou a apontar para setembro, depois da época de férias. Esta é uma produção, de algum modo, independente e, por isso, terei que ser eu a organizar o lançamento.

P: Mas quem quiser já pode adquirir o teu livro. Onde é que pode ser encontrado à venda?

R: Nesta fase inicial, serei eu a promover a venda do livro. Poderão adquiri-lo através das minhas páginas no Facebook, ou por e-mail. Também irá estar à venda no site da editora.

P: És uma das autoras que se deixou desafiar por mim, logo quando criei esta plataforma de escrita criativa: Desafio-te. Uma plataforma que não se foca apenas nos textos em si, mas também em todo o processo criativo que vos leva até eles. Este é um bom mote para falarmos um pouco sobre os bastidores da tua escrita. Donde vem a tua maior inspiração?

R: A minha inspiração para a escrita vem de tudo o que vou vivendo e observando no dia a dia. Essa é a minha melhor inspiração na vida: o que sinto e como sinto.

P: Escreves muito sobre a solidão, o amor. Mas um amor, por vezes, bastante introspetivo, bastante desamor. Sentes que escreves sobre ti, sobre as tuas experiências? Ou há uma fronteira óbvia que te separa a ti, a Angela que escreve, das personagens que habitualmente crias? Ou todos se misturam?

R: É óbvio que existe sempre uma mistura entre os sentimentos de quem escreve e as personagem criadas. As histórias são fictícias, mas os sentimentos são meus. Há sempre a voz do meu coração e o sentir da minha alma em tudo o que escrevo. Só assim a escrita me faz sentido, vinda de dentro de mim. E, por isso mesmo, sempre tive algum receio de expôr as minhas emoções e de como elas podem ser interpretadas por quem as lê. Mas esse é um receio que tem vindo a desaparecer com o tempo. Afinal, é a minha maneira de sentir a vida e o mundo que me rodeia. E eu sou como sou e não como os outros me veem.

P: Tens uma rotina tua para escrever, que sentes que te ajuda no teu processo criativo? Por exemplo: escrever numa altura do dia, ao som de uma música especifica, num determinado sítio.

R: Não tenho grandes rotinas de escrita. Gosto de escrever mais ao final do dia. Se possível, com uma música ambiente, no meu canto. Mas também acontece, muitas vezes, estar num determinado sítio e sentir necessidade de escrever. Surge uma frase ou tema e tem que ser ali, de imediato.

P: Como é que nasceu este teu segundo livro, «Amo-te, Miúdo Tonto»?

R: Os textos do livro saíram de forma espontânea e rápida. Foram escritos entre outubro e novembro do ano passado. Depois, quando os voltei a ler, de imediato me apeteceu editá-los num livro. Seguiu-se o desafio de revê-los e de fazer algumas correções. Entretanto, soube de um concurso para autores desconhecidos e resolvi enviar o projeto do livro, que acabou por ficar em 4º lugar. A edição surgiu na sequência desse concurso.

P: Que palavras gostarias de deixar a quem nos está a ler e a quem — como tu, como eu — sente vontade de chegar às pessoas através da sua escrita, mas está a começar?

R: Que, se gostam de escrever, não desistam nunca! Mostrem o que escrevem. Por exemplo, o Desafio-te é uma ótima rampa de lançamento. Dá-nos alguma visibilidade e tem, depois, a vertente humana, a troca de experiências que nos enriquece em todos os aspetos. Podemos trocar opiniões uns com os outros, esclarecer dúvidas, fazer sugestões. Esta está a ser, sem dúvida, a melhor experiência que já tive no mundo da escrita. Um grupo espetacular. Estamos a crescer juntos e isso é tão bom. Tudo por culpa tua, Laura, que nos lançaste este desafio que nós abraçámos de olhos fechados, sem sabermos o que íamos encontrar. Mas, afinal, foi a melhor surpresa que já tivemos e que fará de nós pessoas diferentes e melhores.

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LAURA ALMEIDA AZEVEDO, a desafiadora
37 anos. Uma dose saudável de loucura. Gosto por tudo o que é novo, diferente, ousado, criativo. Apaixonada por palavras, desenho e comunicação. Licenciada em Jornalismo. Designer gráfico, ilustradora e autora do livro e do blogue «Apetece(s)-me». Incapaz de viver sem a luz do sol, mas completamente rendida ao silêncio da madrugada. Viciada em música, chocolates e varandas. Fascinada por cidades, pessoas e emoções. Nunca diz que não a uma discussão construtiva: afinal, é a conversar que as pessoas se entendem. Em miúda, o seu jogo preferido era o Jogo da Verdade.