Até logo…

Texto vencedor | Desafio de escrita: «Dia dos Avós»

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Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Há muito que já não tenho avós. A lei da vida já se fez cumprir para todos eles. No entanto, aproveito para lhes fazer, aqui, a sua devida homenagem, falando das memórias que tenho deles e que me são mais queridas.

A minha avó materna é aquela de quem menos me lembro. Tinha nove anos quando ela partiu, pacificamente, deste mundo. Lembro-me de que, por essa altura, eu estava com os primeiros sinais de varicela e que acabámos por ficar, os quatro irmãos, a padecer todos do mesmo mal. Coitada da minha mãe! Também me recordo que, sempre que ia lá a casa, passava a correr pelo quarto da minha avó, não fosse ela estar ali à espera para assombrar-me. E, claro, todos gozavam comigo por causa disso.

O seu marido só foi ao seu encontro treze anos mais tarde. Acho que estava à espera de ser bisavô primeiro. Homem alto, enxuto, sempre de chapéu sobre aquela cabeça — provavelmente para esconder aquele a que chamávamos o «galo» do avô, e que não era mais do que um grande quisto que sobressaia por entre a sua cabeleira grisalha.

Tínhamos uma tradição de família. De vez em quando, reuníamo-nos aos domingos em casa do meu avô para jantar a sua famosa canja de galinha (caseira). Não sei porquê, mas aquela canja tinha um sabor diferente. Talvez fosse o carinho com que era temperada. Sentávamo-nos em redor da grande mesa cor de mel e a canja era saboreada ainda a fumegar. Dizia-nos o avô que assim sabia melhor. E era ver toda a gente em redor da mesa a soprar para as colheres para não queimar a língua. Aquela canja era sorvida como se fosse uma manjar dos deuses.

Em casa do meu avô, uma coisa era certa: todos os dias, entre as 19:30h e as 20h, a hora era sagrada. O meu avô acompanhava o terço na rádio. Por isso, não o podíamos incomodar. Então, aguardávamos por ele, a jogar às cartas ou a tentar montar a peças do jenga, enquanto a canja ia cozinhando lentamente.

Mais perto de minha casa, viviam os meus avós paternos. A minha avó era a uma mulher alegre que nos recebia lá em casa — muitas vezes, depois da escola — sempre de braços abertos. Era também hábito eu lá ficar uns dias, de vez em quando. Costumava dizer a toda a gente, armada em fina, que ia passar «férias» a casa da avó. Havia um andar da casa a que nos era vedado o acesso. Tantas vezes a minha imaginação divagava sobre o que haveria ou «quem» viveria lá em cima. No fundo, a minha avó só queria manter uma parte da casa intacta, longe dos nossos olhos e mãos curiosas.

Quantas vezes ia para junto da minha avó queixar-me de uma comichão imaginária na cabeça? E pedir-lhe para verificar se não haveria piolhos a passear pela minha sensível cabecinha? Tudo só para ter direito ao cafuné da avó.

Infelizmente, a doença corroeu-a e deu-lhe a morte mais impiedosa e indigna de todos os meus avós. Tinha eu dezanove anos, quando, um dia, voltava a casa, depois de a visitar, e comentava com a minha mãe que sabia que não iria voltar a vê-la. E assim foi, poucas semanas depois. Na altura, não se dava nome à doença. Esconderam de nós, netos, a sua identidade. Mas, hoje, sei que doença é que provocou aquilo — e que transformou uma mulher forte e alegre numa sombra cadavérica. Fico grata por não ter sido essa a imagem que prevaleceu na minha memória.

O senhor seu esposo era de uma vivacidade contagiante. As suas gargalhadas ouviam-se de longe. Falava alto e recorria muito aos palavrões, o que fazia a minha mãe ficar possessa. E nós, claro, riamo-nos com as suas asneiras.

Tinha o cabelo branco, como a neve, e, ironicamente, era o mais novo dos meus avós. Era vê-lo a passar de cajado na mão e um saco às costas ao fim do dia, depois de ir cuidar dos seus terrenos. Bastaria deixar crescer a barba e passaria pelo Pai Natal. Era generoso com os seus netos e com a sua família. Não tinha muito, mas daria tudo por nós.

Parece que estou a vê-lo, sentado num assento corrido de cimento, no terraço de sua casa por baixo da vinha. Sempre no seu cantinho. Naquele assento cabíamos todos, tal como no seu coração.

Não sei se foi a solidão, ou se foram as saudades. Só sei que, sete meses depois da minha avó, o meu avô também partiu. Deve ter sido isso, as saudades. Nunca chegaram a cumprir o sonho de celebrar as suas bodas de ouro. Já não faltava muito. Espero que a festa se tenha feito onde que quer que eles estejam.

É verdade que já não tenho os meus avós, mas as memórias ficaram. E estas palavras fizeram-me relembrá-las.

Até logo… Um dia destes, encontramo-nos novamente!

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.