Precisamos de alguém que acredite em nós

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Fotografia © Drew Hays | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Drew Hays | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Para mim, os aniversários são mais propícios à reflexão do que a passagem para um novo ano. É nesse dia que se pesam os anos na balança do que já foi. Pesam-se as derrotas e vitórias, as alegrias e tristezas, os acertos e desacertos, as frustrações e realizações, as perdas e ganhos, os amores e desamores, o positivo e o negativo. Pesam-se a realidade e os sonhos.

Sabemos que o que está feito, feito está. Mas vivemos no presente as decisões do passado, quer queiramos admiti-lo ou não. E o negativo é mais difícil de carregar e bem mais complicado de esquecer. Mesmo quando queremos ignora-lo, olhar só em frente, a verdade é de que, cada vez que caímos e nos tentamos levantar, damo-nos conta de que o peso ainda lá está. Que nos estorva quando tentamos nos reerguer, e, quanto mais vezes vamos ao chão, mais peso temos que suportar.

Aos anos somam-se mais um, mas a tudo o resto subtrai-se. Os sonhos perderam força. A esperança também. Há tanto que queremos mudar, mas, muitas vezes, nem sabemos como, nem por onde começar. Somos assombrados pelo número de vezes que falhamos. O corpo pesa, as dores chegam e lembram-nos que a máquina perde vigor e o tempo não volta atrás. Que há oportunidades que já não voltarão a passar por nós. E os anos tornam-nos mais descrentes na vida, e em nós.

Dizem que temos que ser os primeiros a acreditar em nós, que temos que lutar. E acreditamos. Sabemos quais são os nossos pontos fortes e os nossos pontos fracos. Mas batemos tantas vezes contra tantas paredes, que chegamos ao ponto em que duvidamos. E perguntamo-nos se somos assim tão cegos, que se calhar são eles, os outros, que têm razão. E, por mais que alguém nos tente dizer o contrário, nunca o conseguiremos sozinhos. Nalgum momento, precisamos de alguém que acredite em nós.

Perdemos os melhores anos da nossa vida a lutar para sobreviver. Vimos esvair por entre os dedos a nossa energia e o nosso ânimo para nos dedicarmos a algo que nos esvazia a alma. E, no fim do dia, somos meros números descartáveis numa folha de cálculo. Tentamos tapar o buraco que cresce em nós com remendos que são apenas temporários, e que nada resolvem. Desesperamos para que esse buraco não consuma tudo à sua volta, tal qual um buraco negro. Que nos tire a vontade de fazer até aquilo que ainda nos dá algum prazer.

Não é que não haja nada pelo qual ser grato. Mas, quando olhamos em frente e não conseguimos ver nada; quando o túnel da vida se fecha perante os nossos olhos e não encontramos saídas de emergência; quando tentamos partir pedra para encontrar ar, mas não conseguimos, o cansaço começa a tomar conta de nós. Cansados de remar contra a maré. Cansados de ver que tudo passa e nada fica. Que tudo se perde. Que tudo é passageiro. E só fica a vontade de baixar os braços e simplesmente deixar andar, de nos deixarmos ser apenas espectadores da nossa própria vida.

Espero que o sopro, que apaga as velas de mais um ano vivido, leve para longe os fantasmas do passado, que assombram os meus passos futuros, e que desvaneça os meus medos para que consiga fazer o que preciso. Que este sopro apague a dor e o teu rosto deste amor e que o deixe ficar, na esperança de que, um dia, alguém o queira receber.

Que um sopro seja o que baste para desvanecer as dúvidas e afastar os obstáculos do meu caminho, para que ainda, nesta vida, consiga chegar a algum lado que não seja a lado nenhum.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.