Raça Humana: a desilusão

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Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Cartaz © Laura Almeida Azevedo

«Aos outros dou o direito de serem como são. Já eu tenho o dever de ser cada vez melhor.»

O Universo todo sabe que muitos de nós nos baseamos nisto, e que ainda assim somos pecadores assumidos. Pecadores, mas assumidos. E também sabe, porque assiste, aos rolos emocionais que tal filosofia de vida provoca.

Fui percebendo que existem por aí seres humanos de tal ordem, que o nosso organismo os repele instintivamente. Mesmo que teimemos com ele (o nosso bom organismo), tal só nos remete a um sentimento de pura tolice por não o escutar logo em nós.

Depois existem aqueles seres humanos de tal ordem, que ainda nos iludem e tal, competindo-nos a nós próprios chegar à conclusão daquilo que, efetivamente, são na vida… para nos desiludirmos.

Existem ainda aqueles seres humanos de tal ordem, por quem até nutrimos consideração, que mais cedo ou mais tarde… também, esses, nos desiludem. Estes deixam-nos mesmo já boquiabertos e de olhos esbugalhados.

E existem os seres humanos de tal ordem, que temos mesmo em grande consideração. Enfim… de ouvir falar, de ver ao longe, uma boa postura, uma carreira, um percurso, uma excelente (achávamos nós) base… No entanto, se a vida até nos aproxima desses seres humanos de tal ordem…

Por vezes, andamos a topar um destes seres humanos, assim há imenso tempo mesmo. A dar benefício da dúvida, a estudá-lo, a relativizar…

Invariavelmente, os malditos pedestais caem sempre, mais cedo ou mais tarde, com maior ou menor estrondo… E, em simultâneo, a expectativa que se atribuiu à pessoa.

O dia em que tomamos consciência do mau carácter de alguém, em quem até tínhamos colocado o rótulo de «produto de consideração», é um dia de morte, de tristeza. Mesmo que a pessoa em questão não tenha grande ou direto peso na nossa vida. E pela frente ainda virá o luto — pesado, moroso e de difícil aceitação — e terá de vir o processo de passagem, nua e crua, ao outro estado — o da indiferença.

Não há fórmula fixa — secreta que fosse — eficaz, para amparar o impacto da queda de um pedestal. E, por vezes, a coisa apanha-nos tão desprevenidos, bate-nos de forma tão subtil, vem tão levemente… Pode vir diretamente de uma ação da pessoa em questão — a que colocámos nós próprios no cimo do pedestal. Pode ser apenas um gesto, uma visão. Pode vir num comentário de outro ser, tão alheio, esse, ao desenrolar do rolo emocional gigantesco em nós…

Hoje foi dia. Não sei se amanhã o será, quantas ocorrências ainda haverão mais, este mês, este ano, esta era, esta existência… mas, invariável e drasticamente, sem poder algum do controlo de alguém, nos desiludiremos, cada vez mais e cada vez com maior indignação, com seres humanos — sejam eles de que ordem for.

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BÁRBARA MARCELO, a anónima
Toda ela é sentimento por diluir. Tem um trabalho comum, num qualquer escritório, faltando-lhe «o poder para limitar a linha intranquila e incansável do pensamento», que, tantas vezes, a leva a rabiscar. Gosta de pessoas simples, «com jeito cru e espontâneo». E da novidade da comida, da arte e dos encantos naturais, que encontra «neste passeio, sem destino, que é a vida». Tem um porto seguro. E adora a música e o mar. Aqui, entre nós: talvez, um dia destes, deixe de ser anónima.