Nuvens negras

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Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Hoje, dei por mim a pensar em nuvens negras. Sim, em nuvens negras e em como elas parecem tão pequeninas, quando já não estão em cima da nossa cabeça. Parecem monstruosas, quando estão ali — paradas — e enquanto nos encaram e ameaçam não ir embora tão cedo.

Até aqui vai-se aguentando: o pior é quando chove. Sim, é uma nuvem. Por isso, mais cedo ou mais tarde, acaba por chover. Na verdade, acaba por chover mesmo muito — primeiro furiosamente, depois com a intensidade e ritmo necessário para saberes que veio para ficar e, por fim, quando menos esperares, vai cair tão calmamente que nem vai parecer chuva. E, então, quando parar, vais olhar para cima e vais vê-la no mesmo sítio: a olhar para ti. Não fiques zangado. Ela está só a certificar-se de que estás, finalmente, preparado para ver a luz do sol. Vai esperar que deixes de olhar para a chuva que caiu — e que fez os seus estragos — e que mudes de cara: não vais querer receber o sol com a mesma cara com que encaraste a nuvem negra, pois não? Bem me parecia.

Depois do sol entrar… Bem, depois dele entrar, a nuvem gigante vai parecer minúscula. Na verdade, vais ter a ligeira sensação de que nem sequer existiu — talvez tenha sido só um pesadelo. Mas, bem lá no fundo, sabes que a qualquer momento ela pode voltar. Ela vai voltar: só depois de aproveitares o sol.

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CATARINA ANDRADE, a psicóloga a bordo
Tem 27 anos. É psicóloga de formação e assistente de bordo de profissão. Sempre gostou de escrever e, se lhe perguntarem, não se lembra de quando o começou a fazer. Como sempre foi muito crítica para consigo própria, deitava fora quase tudo o que escrevia. Agora, vai-se deixar disso. É este o desafio.