Deixar-te ir

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Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo

E, quando desliguei o telefone, deixei-te ir! Soube-o naquele exato momento. Terminar aquela chamada era sinónimo de terminar uma história que nunca chegou a ser. Era preciso deixar-te ir. Tu ficaste aliviado por me teres contado e eu fiquei aliviada por não ter chorado.

— Foste das poucas pessoas a quem contei! — Disseste, com voz radiante.

Chegara a hora de te deixar ir. Da mesma forma que fizemos durante todos estes anos. Deixámos o outro ir. Só assim tivemos a certeza de que íamos ficando. E resultou. Fomos ficando. Sempre. Entre nós, existe uma espécie de código secreto — daqueles que nunca foram escritos em lado nenhum, para não se decifrar —, através do qual nos pautamos e sabemos as cláusulas de cor. Nunca o violámos. Porquê? Porque não o selámos com palavras, nem com rituais sagrados. Selámo-lo com a alma. E com o olhar. E isso não é passível de ser corrompido.

Amámo-nos à distância. Mas nunca fomos distantes. Amámo-nos em cada conquista que alcançavas, na vida, e que fazias questão de partilhar comigo — sempre, com esse entusiasmo que te é tão característico. Amámo-nos em cada mensagem trocada, mesmo quando o conteúdo era sobre o melhor clube do mundo — o teu —, e eu acabava sempre por acreditar que, de facto, era o melhor, mesmo sendo eu de um clube adversário. Amámo-nos em cada beijo, descontextualizado, que íamos enviando, um ao outro.

Como se explica às pessoas que fiquei, verdadeiramente, feliz quando soube que tinhas encontrado uma miúda que te parecia ter potencial, para ser a «candidata ao trono» — expressão que, em tom de brincadeira, utilizavas? Com se explica às pessoas que te senti feliz, quando soubeste que eu tinha encontrado alguém?

Isto não se explica, pois não? Não. Isto sente-se. E desconfio que só se sente uma única vez.

Já encontrámos amores arrebatadores — daqueles, que nos tiram o fôlego em cada beijo. Já experimentámos paixões que nos levam à loucura e nos roubam o discernimento. Já tivemos a certeza que «desta vez é que é». Desta vez, acertámos na nossa cara-metade. Mas sentir assim, desta forma, como nós sentimos; desta maneira estranha de querer, sem exigir; esta certeza de sermos, eternamente, um do outro, sem ficarmos juntos; creio que isto só acontece uma vez na vida.

Sabes? Há dias, comentava, entre amigos, que deixar ir acaba por ser das maiores provas de amor que podemos dar e/ou ter. E deixamos ir porque, acima de tudo, queremos que a pessoa seja feliz, independentemente de ser, ou não, ao nosso lado. Deixamos ir para que a pessoa possa ser. Ser-se a si própria, na sua plenitude. Ser o que quiser, quem quiser e  nas premissas que lhe apetecer.

Deixar ir é um exercício que implica, necessariamente, uma elasticidade de pensamento. E, para que isso aconteça, é requerido algum treino. Deixamos ir, à custa de muitas lágrimas, de muitas interrogações e de muitos porquês. Só assim aprendemos como se conjuga o tempo certo do deixar ir.

E foi à conta de te deixar ir que sempre ficaste!

Ficaste para sempre. Ficaste, respeitando os meus valores, os meus gostos, o meu espaço e até os meus relacionamentos. Em jeito de confissão, posso, agora, dizer-te que todas as histórias de amor que viveste foram choradas por mim. Chorei-as, por achar que te tinha perdido para sempre. Afinal de contas: «Quem não se sente não é filho de boa gente!» – Já diz o provérbio.

Mas depressa percebi que não valia a pena chorar. Porque não era possível perder-te. Apenas não te teria, fisicamente. E é quando tens essa certeza que percebes que o que sentes é muito mais que um amor físico. É um amor de alma. E os amores de alma não carecem do corpo para se alimentarem.

Por isso, deixo-te ir! Deixo-te ir, mais uma vez. Deixo-te ir, como o fizemos todos estes anos. Deixo-te ir, naquela chamada, de sabor agridoce.

— Foste das poucas pessoas a quem contei! — Disseste, orgulhoso!

— Parabéns, meu amor! Fico tão feliz, por ti. — Disse-o, com a voz embargada.

E, desligando a chamada, soube que, mais uma vez, te tinha de deixar ir. Como já fizemos, tantas vezes, um com o outro. Foi, por te deixar ir, que sempre ficaste. E, assim, desliguei com a certeza de que te irias desligar de mim.

— Hoje, vais ao NOS Alive? — Gritou o telefone, ao mesmo tempo que li o teu nome, no remetente da mensagem.

E, naquele exato momento, soube que foi por te ter deixado ir que iremos ficar juntos para sempre!

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JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.