Olá, maltinha

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Ilustração © Laura Almeida Azevedo
Ilustração © Laura Almeida Azevedo

«Olá, maltinha!»

É assim que costumo começar a conversa naquela janela de conversação do facebook. E eles respondem. Uns dizem «Raquelita», outros «bom dia, Raquel» e há até quem me chame de «caçulinha». Parece que sou dos membros mais novos da família.

Mas a conversa continua. Uns dizem que o São Pedro os brindou com raios de sol e a outros com gotas de chuva. Percorre-se logo aí o país de norte a sul, passando pelas ilhas. Não esquecendo ainda que somos internacionais e damos um pulo à Suíça e outro a Londres. Uns reclamam sobre o trânsito de Lisboa e outros planeiam os seus dias. De vez em quando, enviam um clipe de voz, porque, às vezes, é preciso colocar uma entoação no que dizemos. E, normalmente, no fim de cada clipe, rimos até doer a barriga. Levamos com olhares estranhos na rua, nos cafés e nos supermercados, porque falamos sozinhos para um dispositivo móvel.

Chega a hora do almoço e, com ela, chegam imensas fotos apetitosas, capazes de criar um rato no estômago de qualquer um de nós.

Depois, segue-se a tarde. A conversa também. Quando não nos rimos à gargalhada com as palhaçadas uns dos outros, falamos do que nos afeta, do que nos deixa tristes. É que nós não somos só gargalhadas de cair no chão. Nós também temos nós no coração.

As vinte e quatro horas do dia vão-se esgotando. Uns chegam, outros vão, mas torna-se difícil não verificar, de meia em meia hora, se há novidades. Por norma, há.

A noite aproxima-se e talvez seja aí que aquela janela atinja o máximo da sua capacidade. Tenho orgulho em dizer que temos um chat que bloqueia, tal é a intensidade e o turbilhão de palavras. Porque, afinal, é disso que somos feitos: de palavras. Todos nós somos palavras da ponta dos cabelos à ponta dos pés. Mas somos muito mais. Há quem fique por lá até se fazer a transição para o dia seguinte e há quem se deite com os patinhos. Mas o bom disto tudo é que, após uma noite de sono, estamos lá todos de manhã para começar mais um dia em conjunto.

Esta janela de conversação é o chat do Desafio-te, a plataforma das emoções. E eu desafio-me, todos os dias, a tentar ser normal depois de vos ter conhecido.

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RAQUEL FERREIRA, a engenheira
É de uma aldeia perdida no norte do país e ambiciona ser mestre em Engenharia Civil. No percurso, apaixonou-se pelas palavras e escreve. Sobre tudo. Sobre nada. Ainda não é tudo o que quer ser, mas luta todos os dias por isso.