Todos queríamos voltar atrás no tempo

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Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Parei para pensar no tempo, no meu tempo. No que perdi e naquele que deveria ter perdido. Aquele tempo em que me embalavas com uma melodia mágica e em que adormecia num sonho puro. Em que o colo de mãe era o único sítio onde a segurança e o conforto eram de ouro. Em que brincávamos ao elástico e às escondidas com os vizinhos até às tantas da noite e os pais vinham chamar com um: «Anda! Já chega!» Que saudades daqueles dias quentes, em que comíamos os gelados feitos no frigorifico com o refresco Tang!

Eram tão poucas as horas para todas as brincadeiras que queríamos partilhar, sorrisos, e até lágrimas sempre que se esfolava um joelho ou se caía de bicicleta. O tempo em que nos sentávamos à sombra daquela árvore, que sorrias para mim e me fazias sonhar com o futuro. E o dia em que me deste o primeiro beijo? Um futuro próximo, mas tão longínquo e pleno como a escuridão brilhante da noite, abrilhantada com os olhos de todos nós à descoberta de mais uma nova aventura! Aventuras, palco te tudo e de todos, de teatros e festivais da canção, pintados com sorrisos verdadeiros. Todos aqueles que faziam juras de amor e de amizade eternos a olhar nos olhos profundos uns dos outros, com uma pureza única e verdadeira.

Todos queríamos voltar ao tempo. Àquele tempo…

Quem não se lembra daquela torrada, feita no lume do chão, e o café de cafeteira, servido naquela casa chamada saudade? Quem não queria ficar no tempo de criança, um mundo mágico, onde reinavam a fantasia, o sonho e havia uma maldade bem menor que neste nosso mundo de inversão de valores?

E, hoje, recordo. Não que o novo tempo não seja bom, de todo!

É tão meu este presente, tão intenso no sentir, no partilhar, no querer, no saber ser e no querer ter!

Sou feliz! E tu? És?

Mas recordar o que foi, quem foi, o que ficou em nós, é viajar num mundo tecido com linhas de nostalgia. É ter em nós um sentimento de que fomos felizes e valeu tão a pena!

O tempo é tão efémero. Não percas mais tempo. Corre pelas ruas da vida, da tua vida! Anda! No caminho, pago-te um sorriso de tempo!

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DORA NUNES, a Cinderella
Tem 37 anos e vive em Ponte do Sor — uma «cidade alentejana», diz, «de gente de alma gigante». Trabalha como administrativa num lar de idosos e canta numa banda. Duas terapias que a fazem sentir-se feliz. A escrita surgiu na adolescência. Era uma miúda tímida, com os medos e os anseios tão típicos da «idade do armário». Na escrita, libertava-os, soltava-se. Um desejo? Que cada palavra sua toque o mundo de quem a lê. Sente que a sua missão é ajudar os outros e acredita no lado bom de todos nós. Quem é ela? É a nossa Cinderella!