Este não é um conto de fadas

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Fotografia © Carina Maurício, em A Minha Visão do Mundo... | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Carina Maurício, em A Minha Visão do Mundo, da Vida e das Coisas | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Este não é um conto de fadas, mas começa assim: Era uma vez uma menina…

Respiro fundo, faço uma pausa, engulo o nó que trago na garganta e deixo as lágrimas caírem. Recomeço: Era uma vez uma menina a quem foi roubada a sua inocência. Tinha seis anos e não tinha noção da maldade dos adultos. Era uma vez uma menina, a quem ao crescer, foi roubado mais do que isso: autoestima, amor-próprio, desejo por quem a amava.

Esta menina não tinha consciência do quão grave eram as ações que o seu avô tinha para com ela. Sabia que era errado, porque era chantageada com pacotes de bolachas de baunilha, que ele comprava na taberna ao lado. Era ameaçada pelo avô, que a fazia sentir-se culpada, e vivia com medo. Repito: a menina tinha seis anos, antes disto ela não se recorda. Ela não se recorda quando começaram os abusos. Aliás, dessa idade só tem essa memória. Essa, e a de ter ficado feliz no dia em que o seu avô morreu, quando tinha sete anos.

Como foi possível o seu avô ter tirado a sua inocência e ter implantado, no seu coração, a malvadez de se sentir feliz com a morte de alguém? É muito triste!

A menina cresceu sempre com a consciência de ter cometido um crime na sua infância.

Só no início da sua adolescência, quando começou a perceber dos assuntos da sexualidade, entendeu tudo aquilo que o avô lhe tinha feito. As imagens na sua cabeça continuavam presentes e começou a odiá-lo, mesmo estando ele já morto.

Quando quis iniciar a sua vida sexual, foi muito complicado. Alimentava nojo pelos homens. A memória do cheiro do pénis do seu avô, misturado com o cheiro do tabaco que ele impregnava, dava-lhe náuseas. E nenhum amor foi superior ao nojo que sentia só de pensar em fazer sexo com alguém.

Anos após anos, a menina questionou-se sobre porquê de o seu avô lhe ter feito tanto mal… Penso que esta menina entrou em depressão desde esta altura. Também pelo que aconteceu a partir daí: uma adolescência não vivida, ou vivida em sofrimento; ter sido vítima de bullying na escola e, depois, o falecimento do seu pai. Tudo isto levou-a a uma depressão profunda, aos vinte e dois anos. Foram muitos anos em atitudes auto-destrutivas e sem amor-próprio.

E foi o budismo que a salvou do fundo do poço, que a fez valorizar a sua vida e a aprender a amar-se. Não foi um processo fácil. Ainda não é. Mas, hoje, esta menina, agora mulher, perdoou o seu avô e ora pela sua felicidade, onde quer que ele esteja. Pessoas como o seu avô só podem ser doentes, e precisam de ajuda. Ou, então, são apenas loucas e deviam ser torturadas até à morte. Para o monstro chamado avô não foi preciso. O destino encarregou-se de o levar e salvar a menina.

E, diariamente a menina, agora mulher, assiste a notícias destas e sente revolta! Sente revolta e pena das crianças, a quem estes homens destroem as vidas. Homens, muitas vezes, no seio das nossas famílias. E é muito triste!

O mais difícil para esta menina, agora mulher, foi aprender a amar o homem que estava ao lado dela, sem ideias preconcebidas, sem juízos de valor, sem preconceitos. Libertar-se das imagens da sua infância. Fazer amor e sentir prazer com isso. Sentir cumplicidade nesse acto, que devia ter sido sempre lindo aos seus olhos, que devia ter sido descoberto a dois envolvidos em amor.

Ela não esquece, mas ela conseguiu ultrapassar! Porque a pessoa que nos ama e está ao nosso lado não tem culpa dos actos que outros cometeram no passado. Por isso, se passaste pelo mesmo, por favor, ama-te! E não permitas que, além de tudo o que te roubaram, te roubem a própria vida.

Ama-te e deixa que te amem! Esta é uma mensagem para ti e para a menina, agora mulher.

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.