Diria que te amo

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Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo

As palavras que nunca te direi…

Sim, dizer, porque escritas já foram muitas. Dizer. Verbalizar. Frente a frente. Olhos nos olhos. Tantas vezes pensei nisso. Como seria dizer-te? Uma trapalhada, certamente. Provavelmente, atropelaria as palavras, engoliria outras tantas e esqueceria umas quantas. A voz trémula, a adrenalina a disparar pelo corpo, o coração descompassado. Mas, mesmo assim, o diria. Nem que fosse a última coisa que a vida me permitisse fazer em relação a ti. Dir-te-ia que te amo. Que tenho saudade tuas. Que deixaste a tua marca. Que me ficarás para sempre na memória, seja qual for o meu destino.

É impossível saber como agiremos, perante uma nova situação da nossa vida, até nos vermos perante ela. Faz parte do nosso auto-conhecimento, de descobrir quem somos, do que somos capazes, de quais são os nossos limites. Às vezes, nos surpreendemos ou porque esperávamos fazer melhor, ou porque esperávamos não conseguir.

Até ti, não me conhecia enquanto mulher que ama. Até ti, o patamar do amor era-me desconhecido, nunca o havia atingido. Conhecia apenas o patamar do gostar muito, sei-o agora, e até esse já era deveras desconcertante.

Às vezes, acho que, inconscientemente, já tinha desistido, que já não esperava encontrar alguém que me falasse ao coração. Pelo menos, que chegasse tão longe, que conseguisse passar as barreiras todas e que chegasse ao seu cerne. Não me entendas mal. Este coração é mole e, por isso, em prol da minha sobrevivência, foi-lhe imposto barreiras, e vivo há tanto tempo com elas que passaram a fazer parte de mim. O mais irónico é que quem as derrubou nem precisou de se esforçar para isso.

Não imaginei seres quem és, nem eu sou como me imaginei ser.

Nunca testei tanto os meus limites, a minha sanidade. Nunca testei tanto o meu controlo. Nunca estiquei tanto a corda. Nunca desafiei tanto os meus fantasmas e os meus medos. Nunca me expus tanto, nunca me revelei tanto, voluntariamente. Nunca apostei tão alto contra tão baixas probabilidades. E porquê? Porque, mesmo tendo noção de todos os contras, nunca quis tanto algo na minha vida. Porque nunca me foi tão claro aquilo que queria.

Tem sido uma constante tentativa-erro lidar com este novo desafio, com este amor condenado. E, se isto não é amor, é definitivamente o caminho para ele, mas, como não estás do outro lado, fiquei algures nele, perdida. A vida ainda não conseguiu mostrar-me qual a melhor forma de viver com isto, com este vazio enorme. E, se tenho errado, tem sido apenas na tentativa de acertar.

Sempre achei que seria difícil conjugar o verbo amar alguém, que não seria algo que faria levianamente, mas, hoje, consigo dizê-lo com uma facilidade assustadora. Afinal, só ainda não tinha encontrado quem mo faria dizer.

Sim, tenho pena de nunca te ter dito, olhos nos olhos, que te amo.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.