Ela é linda

Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Linda. Ela é tão linda!

Lembras-te de te ter contado que estas foram as primeiras palavras que disse, quando te vi?

Estava com o João. Lembras-te do João, não lembras? O meu amigo! Naquela festa de anos, há quarenta anos… Tens que te lembrar. Naquela noite, dei-te o meu coração.

O João apresentou-nos. Rosa, é esse o teu nome. A minha Rosa, como digo tantas vezes. Disse-me que eras a pessoa mais alegre que ele conhecia, sempre feliz, disse-me que eras professora. Lembras-te dos teus alunos? Havia dois que vinham cá a casa, muitas vezes, passar as férias de verão, lembras-te?

Disse-me que amavas a vida…

E agora aqui estás tu, presa no teu corpo.

Ainda me amas?

Olho para ti e continuo a achar que és linda.

Quarenta anos… Cada ruga do teu rosto tem uma história para contar. A nossa história! As nossas aventuras!

Lembras-te de alguma?

Oh, o dia em que te pedi para saíres comigo!

Era verão, passei quinze dias a ganhar coragem para te convidar para sair. Precisei mesmo de ganhar coragem!

Até gaguejei quando falei contigo. Lembras-te?

Olhei-te nos olhos e, meio a gaguejar, meio a correr nas palavras, perguntei-te. Lembras-te do que respondeste?

Oh, tinhas uma saia vermelha, uma blusa branca. Quase escondeste o rosto no lenço que trazias a prender o cabelo. O teu «sim» foi tão tímido. Coraste. Mas disseste sim.

Lembras-te?

Aquela tarde foi um desastre! Estava tão atrapalhado que a chávena de café caiu da minha mão. Todo eu tremia. Gago, naquela tarde fiquei gago. Depois quis encher o teu copo com o sumo! Oh, parti o copo, deixei cair a garrafa!

Lembras-te?

Deste uma gargalhada. Seguraste na minha mão e, suavemente, disseste que não valia a pena eu estar atrapalhado, porque iríamos passar o resto das nossas vidas juntos!

Lembras-te?

Tens que te lembrar! O meu coração já era teu naquele dia! Fiquei preso àquela promessa que fizeste. Que ficaríamos juntos para o resto das nossas vidas. Foi há quarenta anos.

Daí até ao casamento foram apenas três meses. Achei que esses meses passaram tão devagar como mil anos! Era uma tortura não te ter junto a mim! Naqueles três meses, disse «amo-te» todos os dias. E ainda digo! Ao fim de quarenta anos, ainda digo «amo-te».

Lembras-te?

Disse-te hoje de manhã, quando te fui acordar. Olhaste para mim e perguntaste quem eu era. Fingi não ouvir! Fomos apresentados há quarenta anos! Pelo João. O meu amigo! O nosso padrinho de casamento. O padrinho da nossa filha, a Joaninha! Sabes quem é a Joaninha. Claro que sabes! Ela, ontem, esteve cá. Ouvia-a a chorar ao telefone. Dizia a alguém que não te lembravas dela…

Mas tu lembras-te, não lembras?

Eu sei que sim…

Como também sei que te lembras do nosso neto. O Diogo! Fez três anos na semana passada. A festa foi linda. Havia balões. Perguntaste o que era aquilo. Eu peguei-te na mão e disse-te o que era. Balões! Até te expliquei como se enchem. Ficaste calada a olhar para eles em silêncio. Depois disso, cantámos os parabéns.

Lembras-te?

O Diogo sentou-se no teu colo. Abraçou-te. Deu-te um beijo no rosto. Chamou-te avó. Perguntaste quem ele era. A sala ficou em silêncio e eu expliquei-te quem ele era. Quem era a Joaninha. Quem era o nosso genro. Quem eram todos.

Lembras-te?

Sorriste. Como é lindo o teu sorriso.

Linda. És tão linda!

E, agora, estás presa no teu corpo, na tua mente. Mas tu fizeste uma promessa. Disseste que ficaríamos juntos para o resto das nossas vidas.

E eu ainda te amo.

Lembras-te?

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MARTA VELHA, a menina do caderno e do lápis
Ela é ativa q.b. — e há quem ache que o é até demais. É bem disposta por natureza e o sorriso é a sua imagem de marca. Por isso, ama sorrir e ama quem sabe sorrir! Adora ler — e há quem ache que lê demais, mas nunca se lê demais, pois não? E adoraaaaaaaaaaa escrever! Não perde um desafio e, por isso mesmo, veio parar aqui. E ainda bem.