A esperança não morreu

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Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Ilustração/Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Descobri, perdido no fundo do armário, um vestido estampado com as cores da esperança!

Estava lá guardado há tanto tempo, que já estava completamente desbotado. Era um vestido feito de uma seda que já estava gasta. O estampado perdera, com os anos, a sua cor. Tinha marcas de abandono e muitas rugas feitas pela solidão, que, agora, seriam difíceis de voltar a alisar.

Era o vestido que eu mais gostava de usar em criança. Tinha bolinhas e flores de várias cores. Muitos folhos debruados com rendas feitas à mão, com o amor sem medida das mãos de uma mãe carinhosa.

Usei esse vestido durante os anos em que a vida, para mim, tinha outros sabores. Quando ainda eram os sonhos que me alimentavam o coração e não precisava de pensar na vida. Nos tempos em que saltava alegremente pelos campos e que sujava diariamente aquele lindo vestido. Ao fim do dia, havia espaço para as repreensões maternas. Mas até isso era bom. Era sempre motivo para um pedido de desculpas, acompanhado de beijinhos e abraços.

Hoje, as ilusões de outros tempos andam longe dos meus olhos. Os sonhos já não cabem dentro daquele vestido. A esperança, que em mim morava, emagreceu e a criança, entretanto, cresceu. Por isso, resolveu guardar o vestido no armário. Julgando que nunca mais iria precisar dele.

Os anos passaram e ele foi lá ficando esquecido. Até ao dia em que os sonhos quiseram voltar e o armário teve que ser remexido. A esperança tinha, novamente, batido à minha porta. Perguntou-me se podia entrar. Trazia com ela algumas novidades que prometiam mudar a minha vida. E, agora, o que poderia eu fazer com este vestido!

Os anos tinham passado, mas a vida ainda fazia sentido. A esperança não tinha morrido. Apenas emagrecido. Os sonhos ainda comandavam os meus dias. Ainda havia o cheiro a criança no meu corpo. No fundo do armário, também encontrei uma caixa com o sabor das alegrias.

O vestido já não me servia, mas nada me impedia de continuar a ter esperança. Em mim, ainda havia muito de criança. Restava aquela parte que nunca morre.

Por isso, está decidido. Vou fazer a dieta dos sofrimentos. Vou retirar da minha alimentação os lamentos, as tristezas e as lágrimas. Vou passar a alimentar-me de alegrias e sonhos. Em pouco tempo, quero voltar a ter o corpo perfeito para me vestir com a esperança.

Por isso, futuro, espera só um pouco mais. Eu já estou no caminho certo e, em breve, volto a saber sorrir!

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ANGELA CABOZ, a miúda gira
Nasceu em Tavira há 49 anos. Desde a adolescência que é uma apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cinema e pela música. Escreve sobre sentimentos e, nas palavras, reflete a maneira de ver e de sentir o mundo. Em 2014, realizou um sonho: a publicação do seu livro «À procura de um sonho». Desde então, tem participado em várias obras coletivas.