Deixa que me apresente!

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Fotografia © Júlia Domingues | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Júlia Domingues | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Não sei se quero falar contigo. Não sei, sequer, se me apetece falar de ti. Tenho, por ti, um desprezo tão grande, tão vil, tão profundo, que todo o tempo que perder a falar de ti estarei a dar-te demasiada importância. A importância que não mereces.

Antes de mais, deixa que me apresente:

— Eu sou a filha de mais uma vítima tua. Não te lembras?

Sou a filha, mas podia ser a mãe, o pai, o irmão, o tio, o primo ou mesmo o amigo. No teu rol de vítimas, tens todos estes parentescos e afinidades, não é verdade? São tantas as presas que vais caçando, que é natural que não te lembres de mim. Sou apenas mais uma filha a quem lhe roubaste o pai.

— Já te lembras agora?

Suspeito que ainda não. São casos a mais, para recordares e conseguires lembrar-te do meu. Ah! E desculpa estar a tratar-te por tu. Sinto que tenho essa liberdade. Afinal de contas, já nos conhecemos. Já tive o desprazer de te conhecer. Fui obrigada a tratar-te por tu, quando chegaste a nossa casa e, sem te apresentares, te foste instalando sem seres convidado. Trato-te por tu porque, afinal de contas, é assim que tu tratas as pessoas, sem sequer saberes se elas gostam desse trato.

Já alguém te disse quais são os reais danos colaterais da merda que tens andado, por aí, a fazer? Nem me atrevo a falar de quem sofre na pele — e, infelizmente, desta vez, não estou a usar nenhuma metáfora — as agruras das tuas amarras. Por muito esforço que faça — e olha que eu sou uma miúda muito aplicada —, não consigo imaginar a dimensão do sofrimento que provocas naqueles a quem corróis por dentro. Arrancas-lhes a dignidade. Feres o olhar. Adulteras o sentir. Emprestas dores, nunca dantes experimentadas, e obriga-los a continuar a sorrir, para que os outros, os que os rodeiam, não se apercebam do quanto sofrem. Mas nós — os outros — apercebemo-nos.

Pensas que só dói a quem sofre com cancro?

Já alguém te disse que os outros — nós — ficam aqui a definhar com o sentimento de culpa por não te terem conseguido vencer? Sim, culpa. Uma culpa que também mata. Não nos mata a carne. Isso tu já fazes o favor de te certificares que acontece a quem sofre com tua doença. É uma culpa que nos mata os sonhos, que nos mata a esperança e que nos mata o viver. Ou tu achas que a vida, para quem cá fica, continua da mesma maneira? Não, meu caro. Muda tudo. E não é só pelo facto de teres roubado, abruptamente, a vida a mais alguém. É pelo facto de seres ingrato, também, para quem cá vai ficando. Para ser verdadeira, não és só ingrato. És um valente filho da puta, para quem cá fica. Daqueles que não merecem que percamos tempo a falar deles. Daqueles aos quais não se deve dar mais importância do que aquela que é merecida. E eu já te dei importância a mais. Quando convivi contigo, lado a lado, e mesmo agora que resolvi falar de ti.

Em jeito de despedida, deixa que me apresente!

— Eu sou a filha de mais uma vítima tua.

E quero apenas dizer-te que podes roubar vidas, mas não apagas sorrisos. Podes causar dor, mas não apagas lembranças. Podes matar esperanças, mas não apagas abraços. Porque eu, filha de mais uma vítima tua, faço questão de recordar, todos os dias, que não me roubaste os sorrisos do meu pai, que não me apagaste as lembranças dos seus ensinamentos e não me tiraste a ternura dos seus abraços.

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JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.