Ser forte é saber quando ser frágil

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Fotografia © Kristina Paukshtite | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Kristina Paukshtite | Design © Laura Almeida Azevedo

E quando queres chorar e as lágrimas não caem? Já tantas vezes as suprimiste, que queres e nem consegues derramá-las. E, mais uma vez, as engoles.

E, quando o sol brilha tanto, que até dói nos olhos e queima a pele, e tu nada sentes? Ficas ali imóvel, estático, a olhar para o vazio. E aquele sol até te cega, mas tu já nada vês. Só a tristeza, a melancolia e a depressão entram pelos teus olhos adentro, assim, de rompante, e se alojam no teu coração, apertando-o, estrangulando-o mais e mais. Toldam a tua visão. Preenchem-te a mente. Criam-te falsas ilusões. Ilusões de que nada és. Para nada serves.

E ali ficas. Imbele. Agarrado a ti mesmo. Refém das tuas amarguras. Do teu pensamento. Não tens ação. E agir para quê? Nada vales mesmo. Que andas cá a fazer?

E assim passam os dias, intermináveis. Imutáveis e banais.

Afastas-te de tudo e de todos. Afinal, nada sentes. E o nada começa a instalar-se e a apodera-se da tua vida, do teu corpo, da tua mente, do teu olhar, do teu agir.

Chegas ao fundo. Sozinho e sentes-te abandonado. Abandonado por essa sorte maldita que teima em não te querer por perto.

E é aí! Aí mesmo, nesse ponto, onde vais mostrar a tua raça. O teu carisma. O teu maior amor. O amor por ti. E vais erguer-te. Ai, se vais! Lembras-te dos bebés? Primeiro arrastam-se, depois gatinham, erguem-se apoiados, tentam os primeiros passos acompanhados. Depois, sozinhos. Caem. Choram. Continuam. Assim serás tu. Apoia-te em alguém que te impulsione, te segure e te dê aquele balanço. Que te inspire. E, voilá, aí estás tu de pé! Outra vez. Caminha! Marcha, corre, voa! Livre. De tudo o que te faça mal.

Dizes «isso é tão fácil de escrever ou falar». Pois, é. De facto, é. Mas se escrevo é porque também já o senti. Já aí estive onde tu estás. E saí. E aqui estou eu. Sempre feliz? Claro que não. Mas sempre nessa demanda, almejando dias e momentos cada vez melhores e que me preencham. Daqueles que acrescentam mais vida à minha vida. E já somos tantos, mas tantos desses momentos. E tu também os tens. E, se não tens a quantidade que queres, então, faz-te à vida. Faz acontecer. Ergue-te.

Chora, se tiveres de chorar. Ser forte é saber quando ser frágil também. É saber chorar. Lava a alma, lubrifica os olhos e assim verás melhor o caminho a percorrer. Esse trilho que só tu sabes qual é. Cheio de curvas e contracurvas, retas, buracos e obstáculos, mas com paisagens lindas de tirar o fôlego.

Ouve a tua voz! Essa voz interior. Que grita há tanto tempo, mas tu não a ouves no turbilhão dos teus pensamentos.

Fecha os olhos. Sim, fecha-os. Não te olhes ao espelho. Não te irás reconhecer. Irás ver uns olhos vazios, tristes. Olheiras carregadas. Semblante pesado. Tu não és isso.

Cerra bem os olhos. Respira. E ouve. Vê. Ouve o que te diz o teu coração. Liberta-o das amarras que o estão a estrangular. E vê o que realmente és e o poder que tens.

Um dia, uma pessoa amiga partilhou comigo o que vou agora eu partilhar contigo. Uma frase, ou melhor duas frases que, a partir desse dia, repito várias vezes ao dia: «Eu sou o poder e a autoridade na minha vida. Sou livre de ser eu.» E é isto mesmo. Tão isto! Tu és o teu poder, a tua força, a tua autoridade, a tua liberdade. O que esperas? Por que esperas? Por quem esperas?

Não esperes mais! (Re)encontra-te! (Re)inventa-te! Tu és simplesmente tu. Permite-te simplesmente sê-lo! E começa já hoje, agora!

Ainda aí estás?

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SÍLVIA SANTOS, a menina-mulher
Diz, por brincadeira, que é a Sílvia e a Aivlis — o seu nome escrito de trás para a frente. Porquê? Porque é de opostos. Voa e rasteja. Ri e chora. Reflete e descontrai. Uma menina-mulher, das que não sabem que sabem e que pensam que não sabem, mas sabem. Forte, mas resistente. Insegura, mas persistente. Com sede de viver, de sentir, de experimentar coisas novas: tanto pratica artes marciais, como salta em queda livre no meio das palavras. O que a sufoca? A monotonia. Anda constantemente em busca de novos desafios — e foi assim que veio aqui parar.