Ela acredita que existem anjos na terra

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Fotografia © Nádia Bento | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Nádia Bento | Design © Laura Almeida Azevedo

Ela acredita em anjos. Não apenas naqueles anjos que não estão na terra em carne e osso, que, muitas vezes, são retratados nos filmes como seres resplandecentes e com asas cintilantes. Ela acredita que existem anjos na terra, pessoas reais que, em algum momento da vida, se transformam em anjos na vida de outras pessoas. Ela não só acredita, como tem a certeza de que é verdade.

Certo dia, ela tinha uma apresentação no trabalho e estava para lá de nervosa. Tinha palpitações no coração, transpirava e tremia de nervos. Ela era nova na empresa, e tudo o que fazia era constantemente posto em causa. «Estava à experiência», pensava ela, e era tão importante que tudo corresse bem.

Ela sempre sofreu muito por antecipação, o que não ajudava em nada naquele momento. Só tornava a situação ainda pior. À hora da apresentação, ela já tinha tudo pronto. Não só por ser extremamente pontual, mas também porque tinha chegado uma hora mais cedo. Mas a insegurança não a deixava em paz.

A apresentação seria feita a três pessoas, e uma das quais intimidava-a bastante. Quanto às outras duas pessoas, não as conhecia, mas pensava que seriam igualmente ameaçadoras, o que não lhe dava qualquer tranquilidade.

A apresentação começou.

A “ameaçadora” comportou-se como ela já estava à espera. Permanentemente com olhares ameaçadores e comentários maliciosos sobre tudo e mais alguma coisa. Assim a apresentação ia ser muito curta e, provavelmente, o seu lugar na empresa ficaria à disposição do próximo mártir.

Foi só no fim da apresentação que a crença de que os anjos existem se confirmou.

As outras duas pessoas, um homem e uma mulher, que nunca tinham lidado com ela, nem sequer tinham trocado uma palavra com ela, revelaram-se anjos na vida dela. Naquele momento, aquele homem e aquela mulher foram anjos na terra.

Apesar dos comentários depreciativos da chefe e das chamadas de atenção, aquelas duas pessoas defenderam-na com unhas e dentes. Não só a defenderam, como elogiaram o seu trabalho e lutaram pelos seus interesses. Atribuíram-lhe um valor que ela própria não pensava ter, e isso foi do que ela mais precisava naquele momento.

Aquelas duas pessoas, que não tinham nenhum motivo para a apoiar e para a ajudar, fizeram mais por ela naquele momento do que muitas pessoas que ela até tem em boa conta. Aqueles dois anjos não só contribuíram para que a sua autoconfiança aumentasse, como, graças a eles, a sua posição na empresa ficou assegurada.

No final da reunião, ela nem queria acreditar naquilo que tinha acabado de acontecer, porque ela tinha a certeza de que, se aqueles dois anjos não estivessem presentes, a reunião teria acabado de uma forma bastante diferente.

Ela agradeceu-lhes mais vezes do que é considerado normal, mas simplesmente não o conseguia evitar, porque naquele momento a gratidão que sentia por eles era maior do que tudo. E eles simplesmente sorriram e disseram que não estavam ali para complicar a vida de ninguém. Simples assim.

Ela regressou a casa e, durante a viagem, não conseguia parar de pensar naquelas duas pessoas, que, sem terem nenhum motivo para a ajudar, fizeram tanto por ela. Mais do que nunca, ela tinha a certeza de que os anjos existem, e dois desses anjos tinham sido colocados na vida dela.

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NÁDIA BENTO, a menina de Cascais
Tem 24 anos e nasceu em Cascais. Lembra-se de começar a gostar de escrever depois de ler o primeiro livro do Harry Potter: no final da leitura, meteu as mãos à obra e escreveu um resumo da história do livro — e das outras seis dos restantes livros. Paixões: fotografia, viajar. Um dia, gostava de escrever um livro de literatura juvenil. «É o que mais gosto de ler», diz.