Há quanto tempo não paras e pensas no que sentes?

1984
Fotografia © Dora Nunes | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Dora Nunes | Design © Laura Almeida Azevedo

Hoje, acordaste com uma sensação de desalento. Levantaste-te da cama, foste à cozinha, tiraste um café e deitaste-te no sofá. O café era amargo, apesar de todo o açúcar que lhe tinhas posto. Todos os dias, o café tinha aquele aroma único que te fazia levantar dos sonhos da vida e começar mais uma luta do dia a dia.

Mas hoje? Hoje, não te sentias assim… Não te apetecia nada, nem ninguém. Nem a ti próprio. Até os teus pensamentos eram insuportáveis de aturar. Um vazio dentro do peito, tão grande, mas tão grande que até apertava e não te deixava respirar. Abriste a janela. Deixaste entrar o sol naquela sala cheia de tudo e tão cheia de nada. O sol era frio, quase gelado. E tu? Não aquecias…

E pensavas: «Como vou sair, hoje, de casa? Como vou enfrentar mais um dia de luta, desta corrida mutante que é a vida?»

Não tinhas força. Não tinhas energia, aquela energia que costumavas ter, aquela que te iluminava o rosto e que te fazia sorrir de uma forma tão especial, que encantavas quem te olhasse. Hoje, não sorrias. O teu olhar pedia-te que parasses e olhasses para e por ti.

De repente, olhaste-te ao espelho e viste uma pessoa que não conhecias. Não sorrias. O teu olhar não brilhava como de costume. Até a tristeza, o desalento e o cansaço da tua alma estavam refletidos no espelho da casa de banho, aquele espelho para o qual tu sorrias todos os dias de manhã e dizias: «Vamos lá a isto!»

O cansaço tomou conta de ti. O desânimo é teu companheiro hoje. As fitas de laço vermelho, salpicadas de brilhantes mágicos, com as quais embrulhas as tuas emoções diárias, hoje são cor purpura. E daí?

Também precisas de um dia para ti. Precisas de parar para te encontrar. Precisas de compreender o que sentes, de ter tempo para sentir. Sabes o que é isso? Tempo para sentir?

Há quanto tempo não paras e pensas no que sentes? Se estás feliz ou triste, se a vida te faz sentido ou não? No que te sentes mais confortável a fazer, se o estás a fazer com o melhor do teu ser? Há quanto tempo não tens tempo para sair da tua zona de conforto e para seres tu?

Sim, tu! Seres tu! Teres tempo para ti, para não sorrires se não te apetecer, não falares se não quiseres e chorares se tiveres vontade!

Não vivas sempre formatado àquilo que as pessoas se habituaram a ter de ti, ao teu comportamento adequado e exemplar!

Se hoje acordaste com a alma menos encantada e abrilhantada do que costume, não faz mal. É o teu ser que te pede ajuda e que cuides mais de ti!

Vive este dia para ti. Deita-te no teu sofá. Vê aquela série que te faz viajar e sorrir como se fosses tu o ator principal. Chora se tiveres vontade. Bebe outro café se não gostares desse, ou, simplesmente, não bebas café!

Recarrega baterias e energias. Amanhã, estarás melhor.

Chora. Ri. Limpa a tua alma. Dá-te tempo!

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorEla acredita que existem anjos na terra
Próximo artigoQueixumes, frustrações e outras coisas
DORA NUNES, a Cinderella
Tem 37 anos e vive em Ponte do Sor — uma «cidade alentejana», diz, «de gente de alma gigante». Trabalha como administrativa num lar de idosos e canta numa banda. Duas terapias que a fazem sentir-se feliz. A escrita surgiu na adolescência. Era uma miúda tímida, com os medos e os anseios tão típicos da «idade do armário». Na escrita, libertava-os, soltava-se. Um desejo? Que cada palavra sua toque o mundo de quem a lê. Sente que a sua missão é ajudar os outros e acredita no lado bom de todos nós. Quem é ela? É a nossa Cinderella!