Não quero perder tudo de novo

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Design © Laura Almeida Azevedo
Design © Laura Almeida Azevedo

Aquela nuvem negra, castradora de sonhos e vontades, paira no horizonte, outra vez.

Já por cá havia passado, há uns anos, deixando um rasto de destruição. Não sobrou nada. Apenas o caos. O vento, entretanto, levou-a para outras paragens, mas de vez em quando vejo-a passar lá ao longe. O vento leva, o vento traz. Ultimamente, tem-se aproximado. Já não é só uma ameaça, mas uma realidade provável.

Nuvem, deixa-te ficar no mar, não voltes à terra. As sementes plantadas ainda nem tiveram hipótese de florescer na sua totalidade. A terra árida fez-se terra fértil, mas não sei se sobreviverá a outra intempérie, semelhante à do passado. Semelhante não, pior. Hoje, as circunstâncias são ainda mais desfavoráveis, as forças adversas mais poderosas. A terra já carrega agruras suficientes, já foi demasiado fustigada pelos elementos, já não se adaptará facilmente a novas sementeiras. A terra tem memória.

A nuvem está mais densa, negra como breu. Os sinais de tempestade são cada vez mais visíveis. Sinto o frio gelado a cortar-me a pele, um arrepio a percorrer-me o corpo. As imagens, as sensações voltam em catadupa. O desespero, a dor, a impotência estão ainda tão presentes em mim. Revivo-as na pele como se ainda lá estivessem. Moldaram quem hoje sou.

Não vejo meios ao meu alcance para destruir a tempestade antes de cá chegar. A memória inquieta-se. Vejo tudo a passar à frente dos meus olhos. Conheço bem o guião deste filme. Não consigo viver tudo aquilo outra vez. Não consigo. Esgotei todas as minhas forças lá atrás.

A reconstrução levou tanto tempo… Não me voltes a tirar tudo. Não agora que, finalmente, voltei a apreciar a vida e a aceitar quem sou e como sou. Não agora que aprendi a conviver com os meus fantasmas. Não agora que assimilei as lições.

Só a mera ameaça já põe o meu corpo e mente em estado de alerta. Sinto-me a presa que aguarda o ataque iminente do seu predador. Quem me dera conseguir atacar primeiro.

As portas estão a fechar-se com a força do vento. Ainda nem recorri a ajuda e ela já se nega. As paredes em meu redor tornam-se asfixiantes.

Não quer voltar a conviver com a inutilidade do meu ser.

Não quero voltar a odiar os dias e a temer as noites.

Não quero perder tudo de novo.

Não me deixes sozinha e desarmada a enfrentar a tempestade, outra vez.

Vida, dissipa essa nuvem do meu horizonte. Não deixes que ela me leve ao fundo. Não quero lá voltar.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.