Tenho medo de amar

769
Fotografia © Nuno Correia | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Nuno Correia | Design © Laura Almeida Azevedo

— Não sei como acabei aqui. Assim. Entendes?

Pedro abanava a cerveja, enquanto escondia o olhar triste. Não tinha tido coragem para lutar pela sua Inês.

— Eu sei — respondeu prontamente Gonçalo. — Pela mesma razão de sempre. Defendes as pessoas de quem gostas.

— Serviu-me de muito. Certo?

— Veremos. Não podes ser algo que não és.

— Pois. E quem sou eu?

— Tu és um bom tipo. Só ainda não o percebeste.

Pedro não sabia muito bem se ia celebrar ou afogar as mágoas! Talvez as duas coisas. Quem sabe?

— Já tens algum plano? — Gonçalo tentava animá-lo, mas ela não lhe saía da cabeça.

— Todos acham que posso e devo avançar. Mas, depois do que aconteceu, já não tenho tanta certeza disso. Pensei que talvez pudesse ter uma vida normal, como aqueles dois.

Ao fundo, no bar, um casal ria. Fazia planos a dois. A cerveja escorregava, fresca, enquanto uma mão escorregava por baixo da mesa.

— O amor está cheio destas coisas. Boas e más, como em tudo no mundo. Um tipo como tu pode fazer muitas coisas boas.

— Sinto que é forçado. Entendes?

— Achas que és o primeiro homem a ser obrigado a escolher entre amar e ser amado, ou nada? Eu era muito bom nisso. Escondi sentimentos, fingi tanto, apenas para não me magoar. Talvez até tenha sido feito para isso mesmo.

— E achas que eu também fui?

— Com o teu talento, Pedro? Não tardará a quebrares uns quantos corações.

— Então, que devo fazer?

— Isso depende de ti, Pedro. Queres sofrer? Queres amar? Queres viver uma vida sem sal? Dentro de alguns anos, quando aparecer alguém que te preencha, não escolhas o mais fácil. Não feches a porta. Diz não apenas ao que te magoa. E não ao que te pode fazer feliz. Perdoa. Perdoa-te.

O olhar centrou-se novamente no casal. A mão dele massajava a perna dela de tal forma que ela estava a ficar excitada. Percebia-se a inquietação no olhar dela. O homem do bar acedeu ao seu sinal.

— Quero pagar duas bebidas ali ao casal feliz — disse. E voltou-se para Gonçalo: — Sabes, Gonçalo, reparei agora que nunca soube porque não acreditas no amor.

— Porque eu nunca te disse, Pedro. Sou uma pessoa muito reservada.

No copo, que pediu ao homem do bar que entregasse ao homem, Pedro deitou o anel que tinha comprado para pedir Inês em casamento.

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorGosto de ti, e de ti e de ti…
Próximo artigoNão quero perder tudo de novo
NUNO CORREIA, o desportista
Tem 36 anos. Nasceu em Coimbra. É um apaixonado pelo desporto e pelo ar livre. Descobriu o gosto pela escrita no dia em que deixou de acreditar no amor... Ou, aqui entre nós, talvez não.