Há amores assim!

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Fotografia © Júlia Domingues | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Júlia Domingues | Design © Laura Almeida Azevedo

Hoje, voltámos para os braços um do outro. Não foi preciso sentir os teus lábios nos meus, para que isso acontecesse. Também não fizemos amor. E, mesmo assim, hoje, voltámos para os braços um do outro. Trazias contigo aquele sorriso de menino, emprestado a um corpo de homem. Tal e qual o dia em que te conheci.

No dia em que te conheci, os astros deviam estar a conspirar a meu favor porque, quando te vi, mais parecia um alinhamento de estrelas, que se organizaram para te iluminar o caminho até mim. Quis o destino que, nesse dia, nos cruzássemos por intermédio de um amigo comum. O ambiente era propício ao convívio e à boa disposição. O período de férias é, quase sempre, guardado para violarmos, propositadamente, as regras que nos são impostas — e que nos impomos a nós também —, durante um ano inteiro. Não escolhemos o relógio como parceiro de viagem, fazemos questão de rasgar o plano alimentar saudável e substituímos os saltos altos pelas havaianas. Em período de férias permitimo-nos quase tudo. O que é proibido, outrora, passa a ser obrigatório nestes escassos dias a que chamamos de férias.

Quis o destino que, nesse dia, eu contasse com mais um convidado para jantar. Vestias um sorriso de menino — que nunca mais tiraste —, com pesponto de homem. Ficavam-te tão bem essas vestes. Não me restou outra solução, senão tirar-te as medidas. Alinhavei-te os contornos do corpo e decorei, de imediato, a textura da tua alma.

Eras feito à minha medida, caramba!

Foste desconhecido durante 5 segundos. No máximo. Depois disso, tive a certeza de que te conheci desde sempre. Mesmo sem nunca te ter visto. Davas vida a qualquer história que narrasses. Eu fui leitora, assídua, de cada uma delas. Embrenhei-me nos teus enredos, vesti a pele das tuas personagens e aplaudi, em silêncio, os finais felizes de todas as tuas aventuras. Quando tive, novamente, um rasgo de lucidez, tinham passado mais de 5 horas desde que começámos a conversar.

— Não foram só 5 minutos? Eu ia jurar que sim.

Olhei à minha volta, e todas as pessoas que tinham composto a mesa do jantar, nesse dia, já tinham recolhido aos seus aposentos. Todos, exceto eu e tu.

— A sério que não passaram só 5 minutos, desde que chegaste?

Voltei a olhar para o relógio. Era de madrugada. Era tão tarde para regressares a casa. E era tão cedo para te ires já embora. Ofereci-te os aposentos para descansares o corpo. Sim, o corpo. Porque a alma estaria, com certeza, demasiado inquieta para conseguir descansar. Aceitaste. Ainda fumámos mais 2 ou 3 cigarros, antes de recolhermos. Caramba! Conhecia-te há pouco mais de 5 horas. Como era possível custar-me tanto deixar-te ir? Encaminhei-te até ao quarto. Pedi-te que ficasses à vontade. Saí, apressadamente, para apagar as luzes e fechar a casa. Só queria deitar-me na cama e ficar ali. A digerir tudo o que abara de acontecer. Que, não sendo nada, tinha sido tanto!

— Se não tiveres sono, podes vir fazer-me companhia.

— Tens a certeza?

— Sim. Tenho. — Disseste!

Foram estas as palavras trocadas — e que guardarei para sempre —, quando passei junto à porta do quarto onde te encontravas. Não me permiti pensar muito. Deixei o receio à porta e entrei. Entrei porque precisava, urgentemente, de te amar. Precisava de vestir o teu toque e de despir a tua alma. E assim foi! Naquela madrugada, selámos, sem palavras, um amor para sempre.

Deveria ter regressado a Lisboa, na manhã seguinte. Só regressei 2 dias depois. E desde esse dia — há mais de 8 anos —, que é assim. Sem promessas, sem condições, sem restrições. Nunca chegámos a ter aquilo que chamam de relacionamento. Nunca fomos namorados. Nem nunca fomos amantes. Fomos apenas um do outro. E, quando isso chega, nada mais há para exigir. Já tivemos pessoas nas nossas vidas que vieram para ficar. E não ficaram. Já vivemos amores e já chorámos desamores. Já achei que estávamos destinados a ficar juntos e já tive a certeza de que nunca iríamos partilhar uma vida a dois. Já te quis avidamente e já te desejei da forma mais serena que é possível desejar.

Neste momento, apenas te desejo bem. Aquele desejo de bem-querer, que vai para além da exigência física. Aquele bem-querer, que sacrifica a carne em prol da paz da alma. Porque há amores assim. Que existem para satisfazer a alma e não o corpo. Que existem para dar sentido à noção de pertencer, sem possuir.

Hoje, voltámos para os braços um do outro.

Mesmo que, desta vez, tenhamos apenas tomado um café — no intervalo das tuas duas reuniões —, sei que fizemos amor com a mesma urgência de há 8 anos atrás. Mesmo que tenha parecido apenas um café, sei que voltámos para os braços um do outro, como naquela madrugada. E sei-o, porque…

Há amores assim!

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JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.