Um trabalho de que gostes

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Fotografia © Carina Maurício | Edição e Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Carina Maurício | Edição e Design © Laura Almeida Azevedo

Quando eu era pequena, queria ser veterinária ou educadora de infância, como a maioria das raparigas daquela idade.

Quando fui para o secundário, fui para o curso de artes, influenciada pelos resultados dos testes psicotécnicos a que nos submetem no 9º ano, com o objetivo de nos ajudar a definir a nossa área de estudo.

Achei que o meu percurso académico terminaria nessa altura. Pensava, erradamente, que o ensino superior era para quem tinha dinheiro.

Foi nesta altura que os professores tiveram um papel importante na minha vida. Incentivaram-me a continuar, porque tinha boas notas e disseram-me que poderia concorrer a bolsas de estudo, que consegui ganhar.

O desafio veio a seguir, quando tive que perceber o que queria fazer no resto da minha vida, definir a minha profissão. Pelo menos, eu pensava assim. Tinha consciência de que iria transportar o peso da minha decisão para sempre. Porque não queria fazer um curso para ficar na prateleira.

Comecei por ver as listagens dos cursos a que poderia concorrer com as disciplinas específicas que tinha. Ora bem, eram listas infindáveis de designs, arquiteturas e belas artes. Todos aqueles cursos onde era imprescindível o fator criatividade, que eu não tinha!

Foi então que, no meio de todos esses cursos, encontrei os de fotografia e conservação e restauro. Gostava muito de fotografar, mas, como já vos contei, poderia continuar a fazê-lo sem estudos. Já a conservação e o restauro envolviam trabalhar com obras de arte, outra das vertentes que eu adorava. E adorava lojas e feiras de antiguidades. O curso era recente e o plano de estudos aliciante. Contudo, quando comecei a ler sobre o mesmo, eram exigidos dois requisitos que eu não tinha: ter boa visão e ter paciência. Li também que não se podia inventar nada, que era essencial o respeito pelo original. Era exatamente isso! Não inventar nada. Respeito pelo original. Quanto à visão e à paciência, logo se veria.

Escusado será dizer que os dois primeiros anos são verdadeiras provas à força mental de qualquer um. Entre químicas, físicas e matemáticas, há quem desista!

Nos anos seguintes, aprendi acerca de diagnóstico de patologias e metodologias de intervenção em todo o tipo de arte, desde pintura, escultura, mobiliário, cerâmica, azulejo, vidro, metal, pedra, etc.

A segunda parte da definição da minha profissão veio no último ano do curso, quando tive que escolher a área para tese/estágio.

Quando terminamos o curso, estamos habilitados a trabalhar com todo o tipo de materiais, mas, se queremos ser competentes numa área, devemos tentar aprofundar os nossos conhecimentos nessa mesma área. Para não cairmos no erro de saber um pouco de tudo e não sermos realmente bons em nada.

Percebi que era na área dos materiais arqueológicos onde me sentia realizada e que tinha um mundo por descobrir. Conforme a proveniência e a tipologia de material, cada intervenção era diferente, cada peça era um desafio.

Entre estágios, bolsas e recibos verdes, posso dizer que ainda estou longe de estar numa situação profissional estável.

Mas sinto-me afortunada porque amo aquilo que faço e, apesar de todos os obstáculos, tenho conseguido trabalhar na área.

O sábio Confúcio escreveu: «Escolhe um trabalho de que gostes, e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida.» E é exatamente isso!

Cada intervenção numa peça arqueológica é como descobrir toda uma existência. O que era, para o que era utilizada e por quem? São perguntas que surgem entre cada remoção de terra, de concreções, de produtos de alteração. São respostas que se abrem diante dos nossos olhos acerca do nosso antepassado.

Para mim, a conservação e restauro de materiais arqueológicos é como fazer uma viagem imaginária a tempos remotos, aos quais todos nós, um dia, já pertencemos.

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.