A direção certa…

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Fotografia © Anabela Mata | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Anabela Mata | Design © Laura Almeida Azevedo

Eram 8 da noite.

Finalmente o trabalho acabara e ia poder correr para casa, correr para ela! Perdera a conta aos dias em que sonhara com aquilo. Ir, na direção certa, abrir a porta da casa que sempre sentiu como sua, ver as fotos deles espalhadas, abraçá-la e partilharem as histórias do dia, enquanto ela cozinhava o seu prato favorito: chilli com carne. Diogo era um homem feliz. Agora. Com ela.

Meteu a chave à porta e o cão correu para ele. Ana cantarolava na cozinha. Parou, a acariciar o cão e a ouvir a voz dela. Diziam que os anjos tinham uma voz bonita. O seu anjo tinha a voz mais bonita de todas… Correu para ela. Primeiro, o abraço, apertado. Depois, o beijo, demorado. E o mundo parava ali, naquela cozinha, no cheiro do cabelo dela, na voz que lhe devolvia a paz. O ladrar do cão trazia-os de volta à cozinha. Era sempre assim… perdiam-se um no outro, num espaço só deles, numa bolha que os separava do resto do mundo. E, depois, voltavam. Voltavam às histórias do dia, ao copo de vinho e aos pratos deliciosos que ela fazia.

Ana sentia-se a mulher mais feliz do mundo ao lado de Diogo. O homem menino, com aparência de bad boy, mas com o coração gigante que ela fora descobrindo a cada dia. Poucos adivinhariam, ao olhar para Diogo, o companheiro fantástico que era, o amigo, o parceiro de brincadeiras, o amante doce e carinhoso, o espirito livre e aventureiro e, ao mesmo tempo, o menino frágil e dedicado. Diogo ensinara-a a saborear cada momento de uma maneira única. Para ele não havia outro tempo senão o agora. Ana adorava viver no agora com Diogo. Na sua vida não havia planos traçados, apenas desejos partilhados. Depois do jantar, ele fumava um cigarro, enquanto ela lhe falava sobre um sitio novo que queria conhecer, um restaurante que queria experimentar, uma viagem que planeava fazer. Ana adorava ir. Diogo queria vê-la ‘voar’, porque era assim que ele a amava, pássaro livre. Eram felizes nas mais pequenas coisas: a jantar uma tosta no Martim Moniz, enquanto riam à gargalhada com o senhor embriagado que se sentara na sua mesa, como se fossem velhos amigos. A tomar café na bomba da gasolina, onde a velhota falava sobre o almoço que tinha de ir preparar para o marido e terminava a dizer: «É tão bonita a sua senhora. Deus lhes dê sorte, saúde e muitos meninos!» No bailarico de bairro que encontraram ao vir da praia e onde pararam ao som das sevilhanas, dançaram no meio de todos e vieram embora descalços. Naquela praia só deles, para onde fugiam só para estar em silêncio a ouvir o mar. No lugar distante, no meio do mato, onde ele pescava e ela era devorada por melgas, enquanto ele, no meio de gargalhadas, cantarolava o ‘bo tem mel’.

Eram felizes apenas porque existiam um para o outro. Não estavam sempre juntos. Não respiravam sempre o mesmo ar. Às vezes, iam para longe um do outro só para poderem saborear o doce gosto de voltar. Porque voltamos sempre aos sítios onde fomos felizes! Quando ela viajava, ele borrifava-lhe a lingerie com o seu perfume: «Para me teres sempre contigo, junto à pele». Como se a pele dela tivesse outro cheiro que não o dele…

Diogo era a sua vida. O amor calmo, o amor leve, o amor seguro, o amor puro, o amor que respira e deixa respirar, o amor livre que cria amarras, o amor eterno que não precisa de tempo, o amor que grita e não precisa de palavras. Chegaram um ao outro como quem chega a casa depois de um dia de trabalho, como quem vem, finalmente, na direção certa. Chegaram um ao outro como quem chega ao destino e aí se deixa descansar. E por falar em descansar…

— Vamos dormir, meu anjo?

— Vamos, vida, que hoje o dia foi longo!

— Dorme bem, meu anjo. Amo-te muito…

— … tanto…

— … tudo…

— … sempre!

Ana e Diogo. Um abraço, uma cama, uma casa, um cão, uma vida. A direção certa. A morada exata.

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ANABELA MATA, a bella
Ela é uma mulher ativa, vegetariana e adepta da vida saudável. Por isso, adora cozinhar, dançar, viajar e, sim, escrever — para ginasticar as emoções. Escreve com o coração: esse, que sente, ama, sofre, é feliz. Adora sorrir. Quase se poderia dizer que ela é a Bella porque é assim que vê a vida.