A casa da minha vida

1924
Fotografia © Vilmos Heim | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Vilmos Heim | Design © Laura Almeida Azevedo

Abri a porta do meu coração, a janela da minha alma, toda a casa da minha vida. Entreguei-te a chave! Dei a conhecer-te as minhas melhores fotografias, as palavras dos meus livros preferidos, as músicas que oiço repetidamente e até o meu filme preferido.

Dei a conhecer-te os meus dons, os meus gostos, as minhas paixões. Entreguei tudo o que sou, tudo o que tinha. Dediquei-me de coração. Fiz o melhor que sabia. E pensei que poderia ser tudo aquilo que desejas.

Mas há sempre algo que está fora do nosso controlo: os sentimentos… Não se pode levar ninguém a gostar de nós. E é triste, muito triste, não se ser correspondida. Dói e magoa.

E foi assim que num minuto, em palavras geladas, a minha casa se desmoronou. Que toda a segurança que sentia passou a medo. Que todos os meus sonhos se desvaneceram. Que me apercebi que interpretara todos os sinais de forma errada.

Tinhas razão. Estava muito envolvida e, com medo de te afastar, nunca te contei o quanto gostava de ti. Estava tão envolvida ao ponto de agora só sentir dor no meu coração, ao ponto das lágrimas não cessarem de correr.

E tenho saudades tuas, mais do que antes. Porque, pior do que estar longe e não te ver, é estar perto e não te poder ter. Tenho saudades do teu sorriso, do teu olhar, das nossas conversas, de dormir nos teus braços, do teu beijo, do teu toque, do teu abraço, do teu cheiro. Saudades de ti comigo.

O que vias como diferenças eu pensei que eram coisas banais, ultrapassáveis, quando se gosta. Eu sempre me concentrei no que poderíamos fazer juntos, nas conversas que partilhávamos e no respeito que tínhamos pelas diferenças do outro.

Tinhas razão. Gosto muito de ti e estava muito envolvida. E foi assim que me apercebi de que continuo a sonhar, a sonhar em demasia. Que me apercebi de que, mesmo após todas as desilusões, ainda acreditava ser possível. Ser possível voltar a amar, a sentir que somos importantes para alguém, que o amor é feliz!

Entreguei-me mais uma vez… e, mais uma vez, desiludi-me. Mais uma vez sinto esta dor que me impede de respirar.

E, então, volto a trocar de porta. Desta vez para uma mais intransponível. Com várias fechaduras, para que uma só chave não seja suficiente. Fecho as cortinas das janelas e, na escuridão, apenas com o meu eu, deixo o tempo passar. Deixo tudo ao abandono, a envelhecer, a ganhar pó, a fazer parte de mais um capítulo desta história.

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorOs anjos existem
Próximo artigoA direção certa…
CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.