Os anjos existem

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Fotografia © Helena Isabel | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Helena Isabel | Design © Laura Almeida Azevedo

A temperatura caíra de repente. Lá fora, o vento gelado fazia-se sentir cada vez mais intenso. Ao longe, avizinha-se uma tempestade de neve que se aproximava lenta e perigosamente. Dentro de poucas horas, a ilha ficaria coberta de neve. Seria impossível sair ou entrar. Poderia tornar-se perigoso. A tempestade poderia durar dias, se não mesmo semanas. O mais sensato a fazer seria ainda partir, enquanto era tempo, mas e, depois, o que fazer?

Fora dali era outro mundo, onde outrora vivera, mas que agora parecia algo distante, onde já não pertencia. Era mais fácil enfrentar a neve fria da ilha do que o frio gélido das pessoas no mundo lá fora.

Hoje era mais um dia de confusão de sentimentos, de dúvidas e tristezas, que assolavam o seu pensamento ao ritmo do mar tempestuoso e revolto, assim estava ela, revolta, confusa, farta de tudo e todos, desejosa de que a tempestade lhe revolvesse as entranhas e lhe levasse tudo aquilo que a torturava, e que, por fim, pudesse sossegar da sua penosa existência.

Em que dia é que as coisas chegaram a este ponto? Quando é que a vida nos trocou as voltas, e nos fez tomar decisões contra a nossa vontade? Em que dia fomos obrigados a seguir percursos diferentes, ainda que não o quiséssemos fazer? Lembras-te no dia em que o mundo desabou, em que a vida nos tirou o fôlego e que, naquele dia, até respirar era demasiado doloroso? Tenho dúvidas se ainda te lembras, ou se a tua mente apagou tudo isto. Tenho dúvidas se conseguiste seguir em frente, ou se ainda sou importante para ti, se sentes a minha falta, se ainda me amas, mesmo eu estando ausente. Se ainda és capaz de sorrir quando te lembras de nós, se ainda eras capaz de virar tudo do avesso por nós, ou se simplesmente morri para ti. Tenho tantas dúvidas…

A vida levou-nos um do outro, mas será que ainda nos pode trazer de volta?

Ela respirou fundo e então sussurrou “não aguento mais”. A partir desse momento, ficou apenas o som do silêncio e nada mais.

A febre fazia-a delirar. Estava na cama fazia dias.

De repente, um grito trespassou o ar como uma flecha, rompendo os delírios febris de há vários dias. Tivera mais um pesadelo, que a torturava, uma vez mais, nos lençóis transpirados. Nesse momento, em desequilíbrio e à beira de um abismo, teve a perceção de um apoio, de uma presença protetora, a consciência de ter voltado à realidade, a sensação de um anjo. Todos os seus sentidos ficaram ao rubro, despertando num ápice para a realidade. Sentiu a frescura de uns lábios na sua testa, a proximidade reconfortante de uma presença, pela doçura de um perfume, e uma voz mais doce ainda, como que única, divina, sussurrando-lhe ao ouvido:

— Acorda, amor… Não me abandones. Preciso tanto de ti.

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HELENA ISABEL, a misteriosa
Nasceu em dezembro de 1983. Diz-se uma «exploradora da vida». Gosta de ler, de escrever e de pintar. Não da pintura dos guaches e dos pincéis. Mas da pintura com as palavras. É apaixonada, irreverente e sensível a tudo o que a rodeia. Prefere um segundo de realismo a uma eternidade de sonhos.