Queixumes, frustrações e outras coisas

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Fotografia © Raquel Ferreira | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Raquel Ferreira | Design © Laura Almeida Azevedo

Em pleno século vinte e um, deparo-me com uma facilidade incrível em substituir o que está, aparentemente, incorreto. Em pleno século vinte e um, desfazemo-nos das nossas relações pessoais por não termos tempo e paciência para as regar e tratar com carinho. Desfazemo-nos do que nos incomoda e nos tira o sono, quando deitamos a cabeça sobre a almofada. É mais fácil. Mais simples. E é isso mesmo que se procura em pleno século vinte e um. Simplicidade.

Ir à raiz do problema para averiguar se há solução exige demasiado discernimento, demasiado esforço e, por isso, ficamos pelo caminho menos árduo.

Mas, depois, vivemos os dias em queixumes. Queixamo-nos da monotonia dos dias, das pessoas que vão, das que ficam, das discussões no trabalho, da falta de paciência, de tudo. Temos pressa que chegue o fim de semana, para podermos descansar e, nesses momentos de repouso, percebemos que vivemos frustrados. E seremos sempre assim enquanto quisermos substituir, massivamente, o que nos atormenta. Porque não adquirimos estratégias de superação, não adquirimos competências pessoais, nem habilidades para tratarmos os problemas e as angústias como companheiros de viagem.

À medida que fui crescendo, tive a certeza de que não podia ignorar os problemas, os dilemas que me surgiam e até mesmo as pessoas que se cruzavam comigo. A solução não é passar por cima, mas ir pelo interior. Não é pisar. É desmembrar e ir o mais fundo que for possível. E, no momento em que não tivermos mais forças para essa luta, é o momento em que percebemos que ainda falta muito para estar ultrapassado. Porque a vida é mesmo assim, deixa-te sem forças para testar a tua resiliência. E, se fores fraco, ficas por aí. Se fores forte, voltas a adquirir forças. E depois, bem, depois a vida premeia-te. Como sempre premiou os mais fortes. E não, não é o ditado popular que aprendi na aldeia. Muito menos uma frase de fachada. É a honestidade de quem tem o coração ligado à boca. E prefere ser feliz.

Não é fácil. Mas também ninguém disse que era.

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RAQUEL FERREIRA, a engenheira
É de uma aldeia perdida no norte do país e ambiciona ser mestre em Engenharia Civil. No percurso, apaixonou-se pelas palavras e escreve. Sobre tudo. Sobre nada. Ainda não é tudo o que quer ser, mas luta todos os dias por isso.