Um beijinho da tua irmã

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Fotografia © Raquel Ferreira | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Raquel Ferreira | Design © Laura Almeida Azevedo

Meu amor,

Olho para ti e tento adivinhar-te o futuro com um tremor nas pernas. Uma tentativa que me deixa sem resposta. Não sei como será o teu progresso, que decisões vais tomar, quais os caminhos que vais seguir.

Não sei, mas quero ser o teu exemplo. Quero que não cometas os mesmos erros que eu, que aquilo que eu fiz de errado seja a tua motivação para fazer diferente. Os meus erros são o máximo que te posso dar. Para o resto, só te posso dar um ombro para chorar, uma mão para limpar as lágrimas, um sorriso para acalmar e uma gargalhada para festejar as vitórias.

Garanto-te que, em algum momento do teu percurso, vais ter vontade de desistir, mas peço-te: não o faças! A vitória saberá melhor depois, pelo esforço e pela dedicação que colocaste na tua luta.

Garanto-te que, muitas vezes, vais querer voltar a ser criança, mesmo que agora só queiras ser adulto. A responsabilidade é tramada, juro-te. A faculdade não são as aulas de Geometria Descritiva e viver fora de casa não é só sinónimo de saíres até às horas que quiseres. Quando estás doente, não tens a mãe para te fazer um chá que cura tudo e, quando ficas sem o cobertor durante a noite, não tens um pai para to puxar para cima e, muito provavelmente, vais acordar constipado. Vais ter de aprender a curar essas constipações sozinho.

Garanto-te: vais chorar, mesmo que agora te achas muito forte e incapaz de sentir saudade ou tristeza. Mas também te garanto: vou estar atenta a isso, de longe, mas atenta. Ainda que me doa, vou deixar-te falhar, vou deixar-te errar, vou-te deixar-te cair. Porque vais precisar de aprender, sozinho, a levantar-te e a corrigir as tuas falhas. Vais ter de aprender, sozinho, a lidar com as rosas com espinhos da vida. Eu posso apenas soprar as feridas para que não ardam tanto, mas tu é que vais ter de as limpar, tratar e deixar cicatrizar.

Mas, garanto-te, vou estar sempre aqui.

Um beijinho da tua irmã,

Raquel

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RAQUEL FERREIRA, a engenheira
É de uma aldeia perdida no norte do país e ambiciona ser mestre em Engenharia Civil. No percurso, apaixonou-se pelas palavras e escreve. Sobre tudo. Sobre nada. Ainda não é tudo o que quer ser, mas luta todos os dias por isso.