Nesse encontro previsto

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Design © Laura Almeida Azevedo
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Impecavelmente cuidado, virias. O porte a sobressair. Os passos decisivos. O jeito seguro a esconder uma tremenda confusão. Apresentar-te-ias daquela forma fabricada, mas que já não me enganaria, ainda teimosamente mais calmo e sereno do que em tempos que já lá vão.

Sentir-te-ia automaticamente. Era o amadurecimento. Ver-te-ia algumas rugas junto aos olhos… e alma e mente estariam, entretanto, em mais evidente fusão.

Falar-me-ias, a sorrir, dos teus filhos, das rotinas com eles, do quão difícil sentes que será criá-los neste mundo de imperfeição. Falar-me-ias ainda dos passeios em família, dos petiscos que agora sabes cozinhar… por eles, então! Dos bocados de noite perdidos a pensar na vida, no futuro, naquele luar que para trás ficou. Do quanto te arrependeste de teres traído uma confiança que haviam depositado em ti, do quão triste ficaste contigo próprio desde então.

De teres comprometido, naquele longínquo momento, o futuro e estabilidade emocional da tua primeira filha… tudo em vão.

Falar-me-ias do peso que sentiste, quando soubeste que ias de novo ser pai, depois de tudo. Da ratoeira onde, de repente, te viste para sempre, da forma como to transmitiram, da emoção. Dos sentimentos contraditórios que daí resultaram, sem que lhes pudesses ter mão.

Mas não me encararias. Já não prenderias os teus olhos nos meus, não me abraçarias ternamente e nem segurarias mais na minha mão.

Eu, eu beberia com extrema delicadeza a minha água preferida de sabor a limão. Ouvir-te-ia em silêncio. Pediria tão somente o teu perdão. Consciente da pura realidade da vida, talvez te falasse do local onde acredito que almas perdidas umas das outras, um dia, se encontrarão.

Talvez pousasse sobre a tua, em jeito de quem conforta o outro, a minha, agora já não trémula mão. E talvez te desse no rosto um beijo, como os que se dão a um irmão.

Seria como um encontro de estranhos e distantes cúmplices — que ainda não foi nesta vida que o deixaram de ser — carregados de surda e impossível paixão. Agora, no entanto e a fazer toda a diferença, já despidos de qualquer ilusão.

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BÁRBARA MARCELO, a anónima
Toda ela é sentimento por diluir. Tem um trabalho comum, num qualquer escritório, faltando-lhe «o poder para limitar a linha intranquila e incansável do pensamento», que, tantas vezes, a leva a rabiscar. Gosta de pessoas simples, «com jeito cru e espontâneo». E da novidade da comida, da arte e dos encantos naturais, que encontra «neste passeio, sem destino, que é a vida». Tem um porto seguro. E adora a música e o mar. Aqui, entre nós: talvez, um dia destes, deixe de ser anónima.