Crónica de Paris

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Design © Laura Almeida Azevedo
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Lisboa, 26 de novembro

Laurinha:

Imaginas-nos em Paris?

À nossa frente, a torre Eiffel. Atrás, o Sacré Coeur. Posso corrigir isto, se quiseres, mas se não for assim não importa. É assim que me recordo, ainda, de Paris. Só que já passaram 30 anos e agora voltarei contigo.

E agora voltei, voltámos, para escrever uma série de crónicas para o sempre teu Farol do Penedo.

Perguntas-me tu «para quê meter vírgulas entre nós». Mas esse será sempre o teu jornal, porque nem eu, com este talento natural para a escrita – foste tu que o disseste! – me atrevo a dizer o contrário sobre o que acabo de escrever, quanto mais outros, que nem o nome sabem, ávidos protagonistas porque um dia o teu jornal foi o melhor da Península. Assim também eu! Só que agora não me desmintas tu: o Farol só voltará a ser o mesmo quando voltares a fazê-lo com o mesmo amor que puseste e ainda pões em tudo aquilo que fazes – disseste-o tu!

Mas voltemos a Paris.

Recordo-te um mail de há tempos atrás, mas devidamente corrigido, uma vez que os protagonistas são mais recentes, como sabes. Ao teu, dei a cor do chá que, às vezes, me convidas para beber, não tantas vezes embora como eu gostaria que acontecesse. Contigo, claro, pois saberás que não sou adepto de chá. Exceto do teu, “com tigo”.

CORRESPONDÊNCIA

From: [email protected]
Subject: Enlouquecendo de LA
Date: Wed, 4 Nov 16:58:13 +0000

Cara Laurinha:

Espero enganar-me, mas estou a ver-te a tentar dar cabo dessa maldita gripe.
Não é por isso que estás de baby-doll azul (ou é branco com flores azuis?)?

Dá cabo dela, para estares em forma de novo, amanhã ao início da noite, na reunião da Empress.

Já comecei a espiolhar os contos do Lobo Antunes e reparei que gostas de assinalar, como eu, as partes de que gostas. E li o conto, porque leio a atravessar, “Edgar, Meu Amor” que assinalaste.

— Gosto de ti fofinha
e lembro-me de te ouvir dizer que não gostas deste termo, mas quem fala assim é o Edgar, não sou eu, mas mesmo assim perdoa.

— Sua má sua mazona
e acho que este é dos bons do Lobo Antunes.

— Levanta o braço amor que me aleijaste
e vejo-te a empurrar a gripe no baby-doll azul (ou é branco às flores azuis?).

— Deslarga-me
e eu, que te adoro, a pôr-te a mão na coxa, e tu como se a minha mão queimasse.

(— E a tua gripe, incomoda-te?)
numa voz como a tua, amor, fofinha, mazona, bichaneca
e o Edgar a fugir da Deolinda no canto do sofá e eu a delirar que até parece que a tua gripe me chegou também e nem assim quero fugir de ti.

Vou voltar a procurar-te, e a cabeça à roda como se enlouquecesse.

Estou de acordo com os teus sublinhados que povoam imaginários:
«Quando o coração se fecha, faz muito mais barulho que uma porta»
não me faças isso.

Boas melhoras.

Bjs,
Vasco

Lembras-te?

Na viagem para cá, enquanto falavas com a assistente de voo, que reconheceste dos teus tempos de estudante, rabisquei no papel, onde apontara os nossos contactos na cidade-luz, as linhas que te li quando regressaste ao presente.

«Não.
Transformar em areia um mar de espuma
Isso não!
Um mar sem raiva, sem espuma e ondas
como um mar de Aral,
não é o mesmo mar.
Mil vezes este silêncio que me dói agora, mas
um mar de areia é como o silêncio
de uma mulher que se cala.
Não, isso nunca.»

Tu ouviste-me, os olhos brilharam-te em comoções estranhas, enverdeceram de novo e deitaste a cabeça no meu ombro, aconchegando-te. Estivemos em silêncio alguns instantes, longos. Já o Boeing descolara quando eu ta retirei com carinho. Beijei-te na boca, três segundos mais do que o costume, levantei-me e tirei a gabardina, que dobrei e estiquei sobre as tuas pernas. Em Lisboa estava frio, mas em Madrid chovia. E as minhas mãos iam necessitar de espaços invisíveis onde te pudessem dizer que, em Paris, iríamos encontrar a combinação perfeita entre trabalho e prazer, entre as nossas crónicas e a tua vontade de ser feliz.

Começara a escurecer lá fora. Voltaste a recostar-te no meu ombro, virando-te de lado. Já tínhamos quinze minutos de voo, quando a voz do comandante te fez aconchegar no banco.

— Estamos agora a passar sobre o túnel da Gardunha. A mancha iluminada que se vê à direita é Alpedrinha. Iremos curvar agora para Este, rumo a Madrid. Desejamos a continuação de uma boa viagem.

As luzes à nossa volta iam diminuindo de intensidade. Pus a minha mão sobre o teu ombro e aconchegámo-nos. Sob a gabardina azul a minha mão direita começou a desenhar estranhas fantasias. No nosso dividido i-pod, a música que gravaras da Nana Mouskouri, de quem me ensinaras a gostar, acompanhava-nos no Concerto por Aranjuez.

Mon Amour, cantava ela. Mon amour, sussurrava eu encostado ao teu ouvido.

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FERNANDO JORGE, o biólogo
Cozinheiro, aos 12 anos. Artista de teatro, fundador do grupo Madrugadores do Adro, em Ribeira de Frades, aos 16 anos. Praticante de atletismo na AAC. Professor na Escola Industrial e Comercial da Marinha Grande, aos 21 anos. Começou a escrever o livro Poemas de amor e de raiva, aos 22anos, e ainda continua. E continua.