Abre a porta

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Fotografia © Dora Nunes | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Dora Nunes | Design © Laura Almeida Azevedo

Estás parado à porta do apartamento da felicidade aparente. A porta está entreaberta, mas tu não sabes se deves entrar. Lá dentro está um nevoeiro quase cerrado, como se de uma manhã de inverno se tratasse.

Olhas para todos os lados. E agora? Entras ou não?

O aroma que vem de dentro enfeitiça-te, deixou-te atordoado até… É de uma intensidade impressionante. Chama-te. Puxa-te…

Mas e se? E depois? E o resto?

Como saltar este degrau de incerteza neste apartamento de felicidade aparente? Como saber se aquela porta do desconhecido te trará algo que valha a pena? Não será o Cabo da Tormentas aquele mar lá dentro da porta misteriosa? Como saber se o novo e o imprevisto te farão feliz? Estarão os sonhos em banho-maria ou em ponto rebuçado? Será a tua alma bafejada com o aroma da baunilha chocolate, que te fará subir a montanha e abrir sem medo a porta entreaberta?

Não tenhas medo do desconhecido. Não tenhas. Abre a porta de forma destemida. Mergulha de cabeça no mar que está dentro do apartamento da felicidade aparente. Nunca saberás se não entrares e tentares morar lá dentro.

Se te despejarem do apartamento? Se tu próprio fizeres as malas e fores embora? Se já não quiseres viajar por aquelas águas?  Se a tua alma já nem se perder, nem se prender por lá? Não faz mal.

Tentaste. Lutaste pela tua felicidade. Foste feliz por momentos. Fizeste a tua eternidade. Se foste perfeito? Não, mas, como diz alguém que conheço, a perfeição é mesmo a antítese da felicidade.

Navegaste no Cabo das tormentas que, várias vezes, foi o teu Cabo da Boa esperança!

A tua alma estará completa, feliz e com um sabor a baunilha-chocolate tão intenso, que nunca mais vais esquecer aquele momento em que não tiveste medo de escancarar a porta entreaberta!

Ainda hoje sentes o sabor intenso da baunilha misturado com o chocolate! Verdade?

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DORA NUNES, a Cinderella
Tem 37 anos e vive em Ponte do Sor — uma «cidade alentejana», diz, «de gente de alma gigante». Trabalha como administrativa num lar de idosos e canta numa banda. Duas terapias que a fazem sentir-se feliz. A escrita surgiu na adolescência. Era uma miúda tímida, com os medos e os anseios tão típicos da «idade do armário». Na escrita, libertava-os, soltava-se. Um desejo? Que cada palavra sua toque o mundo de quem a lê. Sente que a sua missão é ajudar os outros e acredita no lado bom de todos nós. Quem é ela? É a nossa Cinderella!