Não, hoje não

Fotografia © Beatriz Rodrigues da Branca | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Beatriz Rodrigues da Branca | Design © Laura Almeida Azevedo

Hoje, não. Hoje, não me olho ao espelho. Não quero ver o reflexo da minha imagem — o reflexo de quem sou. Quero apenas ser quem sou, sem o ver. Quero apenas sentir-me acompanhada, quando só. Quero, sim, ver quem sou aos meus olhos. Não ver quem os outros pensam que sou, aquela pessoa para quem olham e, logo dali, geram juízos de valor. Porque essa pessoa não sou eu. Porque essa pessoa é outra — aquela que a minha imagem faz de mim.

Não sou, nem nunca serei, o mar de segurança que as pessoas veem na minha pessoa, tanto me falta para o alcançar. Toda a gente tem inseguranças  e eu, certamente, não fico de fora desse grupo. Mas estas minhas inseguranças levaram-me a ver o mundo de outra forma, com outro sentido, com outro rumo. É isto algo que os outros não notam, ou porque não veem, ou porque preferem ignorar. Porque para os outros eu sou a rapariga perfeita  aquela que possui mais virtudes do que defeitos, aquela que atinge os objetivos com pouco ou nenhum esforço, aquela que tem muito para ser feliz. Pena que assim não seja! Tomara eu ter tantas virtudes, que as pudesse dar e vender. Tomara eu não me esforçar nada para alcançar os meus planos, os meus sonhos. Tomara eu não ter feridas internas, que não me permitem ser totalmente feliz. Sei que a felicidade é relativa, mas talvez me falte um grande pedaço para a alcançar na totalidade — se é que alguma vez o quererei fazer. Na realidade, não sei se o perigo o compensa.

Hoje, não. Hoje, não me olho ao espelho. A pessoa que lá vejo não é quem me parece ser. A pessoa, que lá vejo, tem medo de se olhar ao espelho, por através dele ver o vazio da sua própria existência. Mas é esse vazio que a faz gostar de existir.

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BEATRIZ RODRIGUES DA BRANCA, a controversa
Tem 19 anos e o mundo é ainda tão grande. Aspirante a farmacêutica, «um dia, talvez seja escritora também», diz. Ama os livros, o café, as ciências e as letras. Acredita que podemos ser o que quisermos — e podemos. Está aqui porque aceitou este desafio: superar-se a si própria.