Uma dose de amor-próprio!

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Fotografia © Sofia Almeida | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Sofia Almeida | Design © Laura Almeida Azevedo

Ela entrou disparada na livraria. O olhar dela era triste. Os olhos em água. Engolia a saliva devagar. Mexia nas mãos como se quisesse agarrar alguma coisa que estivesse a fugir.

– Diga, menina – disse o vendedor.

Ela com a voz baixinha, para que ninguém ouvisse, disse:

– Queria, por favor, uma dose de amor-próprio!

Ele deu uma gargalhada, mas rapidamente se recompôs. Afinal, estava a trabalhar e tinha de ser profissional.

Respondeu:

– Desculpe, mas isso é o nome de algum livro? Como assim, uma dose de amor-próprio!?

Ela, com a voz a suspirar, respondeu:

– Antes fosse um livro. Gostava mesmo era que se vendessem doses deste género. Mas tem algum livro, desses de auto ajuda, sobre a insegurança, amor-próprio, essas áreas?

Ele sorriu e sugeriu:

– Vá àquela secção, ali à direita. Vai encontrar alguns livros desse género.

Ela foi. Passava os dedos nas capas dos livros. Lia na diagonal. Doze para ser mais feliz. Dez dicas para se abraçar a si própria. O segredo para ser feliz. Etc, etc. Pegou num livro, pagou e foi-se embora. Apanhou o autocarro para casa. Pegou no seu livro novo e começou a folhear. Como se fosse um primeiro encontro.

Ao seu lado, estava uma senhora mais velha. Com as mãos enrugadas, cabelos grisalhos. Tinha um casaco quentinho. Usava um lenço ao pescoço. Tinha uma aliança cravada na mão. Sim, cravada. Foi essa aliança que chamou a sua atenção. «Como é que ela tem aquela aliança ali, no dedo, assim naquele estado? Já não anda para cima, nem para baixo. Vai ficar ali para sempre. Aposto», pensou.

A senhora mais velha olhou-a e sorriu. Ela pensou. Sorriu de volta.

A senhora perguntou:

– Então… ainda a estudar, menina?

Ela mencionou:

– Não, é um livro de lazer. Acabado de comprar.

A senhora continuou:

– Que bom ver jovens que têm o gosto pela leitura. Eu sempre gostei muito de ler. De que fala esse livro?

Ela, timidamente, respondeu:

– Fala sobre os Doze passos para ser mais feliz!

A senhora não se conteve e deu uma gargalhada.

– Então, mas agora fazem livros desses?

– Como assim? – respondeu a jovem, admirada.

A senhora acrescentou:

– No meu tempo, se havia livros desses, não os li. Eu lia os Maias, Camilo Castelo Branco, romances. Como adorava ler romances! Não é tão bom, menina, ler sobre o amor?

Ela suspirou e reagiu: 

– Foi precisamente por ser tão romântica que decidi comprar este livro.

– Então, menina? – quis saber a senhora.

– Estou muito desiludida com o amor… – respondeu ela, com a voz baixinha e os olhos tristes.

A senhora questionou-a, indignada:

– Ora, então! Tão nova e já a pensar que o amor é uma desilusão? Tens uma vida inteira pela frente.

Ela afirmou:

– Verdade. Eu sofri, agora, uma grande desilusão, e estou meia perdida. Acho que gosto mais dele do que de mim!

A senhora sorriu e continuou:

– Sempre ouvi dizer que, no homem, há mais amor-próprio do que amor. Na mulher, pelo contrário, há mais amor do que amor-próprio. Vou dizer-te, agora, tudo aquilo que está escrito aí nesse livro: Gosta de ti em primeiro lugar. Gosta mais de ti. Ama-te. Queremos dar amor a todos os que estão à nossa volta, o que está certo, mas, às vezes, esquecemo-nos de o dar a nós mesmos. Qual foi a última vez que te amaste a ti própria? Abraça-te a ti própria. Esperamos sempre, consciente ou inconscientemente, que alguém reconheça o nosso valor, as nossas atitudes.  Esperamos que os outros aprovem o que somos, o que fazemos e, quando não somos reconhecidos por aquilo que fazemos e somos… pronto, deixamos de acreditar nas nossas capacidades. Buscamos o amor dos outros, quando ele também está dentro de nós. Acredita mais em ti. Ama-te mais a ti. És linda. És jovem. Tens tudo para seres feliz. Não deu certo? Aprende. Não era para ser. Ainda bem, não é?

Atenta ao conselho da senhora, a menina ficou sem saber o que dizer.

– Não tenho palavras.

– Não precisas de falar nada. Pensa no que te disse. És muito nova para pensar assim. A vida é tão bela. Há problemas bem maiores! A minha mãe sempre me disse, quando eu reclamava e batia o pé: «Filha, há pessoas que têm problemas bem maiores do que os nossos. Se tu olhares as coisas assim, vais ver que és bem mais feliz.»

Saíram as duas na mesma paragem. As duas olharam-se com tanto respeito.

– Obrigada pela companhia – disse a senhora –. Sou uma fala-barato. Eu sei!

A menina sorriu:

– Foi o melhor do meu dia. Obrigada.

Lá seguiram, cada uma o seu caminho. Chegou a casa,  a mãe perguntou-lhe:

– Livro novo?

Ela respondeu:

– Não. Este já o li!

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SOFIA ALMEIDA, a professora
É feita de sonhos, de saudades, de amor. É feita de coragem, de abraços, de risos e de gargalhadas. É feita de bom humor e de algum mimo também. É feita de uns dias melhores e outros assim assim. É um pouco do que lê, do que vê, do que ama, do que guarda. É também um pouco daqueles que ama, daqueles que ouve, daqueles que estão aqui, bem dentro, no seu coração. É feita de algumas fraquezas, algumas conquistas, alguns desafios. É feita de um amanhã, de um hoje e de um ontem, que já passou, mas que faz ainda parte de si. É a Sofia.