Como se ama depois de amar?

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Fotografia © Júlia Domingues | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Júlia Domingues | Design © Laura Almeida Azevedo

E agora? Como se faz? Como se reprograma o coração para amar outra pessoa? Outra pessoa, que não tu?

A paixão, por norma, define-se como um turbilhão de sensações que chega sem avisar. Sensações que não cabem mais no peito. Reações químicas. Alterações de hormonas. Descobertas de feromonas. Qualquer coisa para a qual desconfio que nem a própria ciência tem uma explicação  devidamente fundamentada. 

Não sabemos as causas. Mas conhecemos, como ninguém, os seus efeitos. A paixão, na maioria dos casos, causa extrema dependência. E é altamente contagiosa. Para quem se apaixona e para quem se deixa apaixonar.

Os efeitos colaterais? Começam-se a sentir ao nível da face, que sofre uma contração muscular involuntária, e que nos faz estar a sorrir, sem motivo. De dia. E desconfio que de noite também. As conjugações gramaticais, não utilizadas anteriormente, começam a fazer parte do vocabulário diário dos apaixonados.

— Ele é perfeito!

— Ela faz-me sentir coisas que eu nunca senti!

Após a fase da negação, em que achamos que as outras pessoas é que estão, completamente, senis — quando nos dizem que estamos apaixonados —, vem a fase da interrogação.

— Não me digas! Estou a apaixonar-me? 

— O que é isto, que estou a sentir?

Temos a confirmação quando achamos tudo perfeito na outra pessoa. Até mesmo a forma desengonçada como ele abre uma lata de atum! Nunca na vida pensamos ser possível achar piada a uma lata de atum! Mas achamos. Na verdade, como tantas vezes nos dizem, nestas alturas, e como dizemos a nós próprios, em surdina: «Andamos mais parvos!» 

E é unânime. É tão bom! Pelo menos, esta fase. Andamos mais leves. Os pés não andam assentes no chão. Temos quase a certeza de que flutuamos.

E depois?

Depois, tudo devia ficar por aí. Não deveria ser permitido passarmos à próxima fase. Na próxima fase, existem dois caminhos possíveis. Distintos, porém. Numas vezes, é-nos dada a opção de escolha; noutras, nem por isso. Numas vezes, a paixão entra, faz os estragos que tem a fazer e sai, deixando para trás apenas bons momentos. Loucos. Vividos. Saboreados. E segue o seu caminho. Noutras, entra, instala-se, confortavelmente, pede um café duplo e pede para ficar.

É aí que percebemos que a paixão apenas vinha disfarçada de amor. Cai a capa e o amor apresenta-se. Amamos. Sofregamente. Intensamente. Para Sempre. Quando amamos é para sempre. Temos a certeza. Queremos morrer velhinhos e de mãos dadas. Queremos saber de cor o que o outro gosta, o que não suporta e queremos decorar as horas a que tem de tomar o comprimido para a tensão arterial. Quando amamos é para sempre. Temos a certeza.

Mas nem sempre.

Amamos para sempre. Só que o para sempre, por vezes, é muito tempo.

Disse-te, muitas vezes:

— Não foste o meu primeiro amor, mas acreditei que fosses o último!

E, quando se acredita nisto, quando se vive isto, não se equaciona que pode existir o após isto. E o para sempre, por vezes, tem prazo de validade, que, uma vez expirado, percebemos que já não se pode mais consumir. Está estragado.

E agora? Agora, fora de prazo, o para sempre tem um cheiro diferente, um sabor adulterado e provoca reacções nocivas ao organismo.

E agora? Agora, como reprogramas o palato e o cheiro, se tudo te sabe a fora de prazo? Como se reprograma a alma, novamente, a viver o para sempre se foste forçada a substituir por nem sempre?

Exercício ingrato, este, de substituir tempos verbais!

— Não foste o meu primeiro amor, mas acredito que te amei, como se fosses o último!

E isto, sim, será assim para sempre!

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JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.