Só não partas antes de mim

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Fotografia © Josh Felise | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Josh Felise | Design © Laura Almeida Azevedo

Parecias tão animado quanto eu. Aquela Páscoa também soou tão mágica para ti como o foi para mim. Toda aquela descoberta, do que parecia ser perfeito para os dois, envolvia-nos amplamente. Serenávamos com o mesmo. Escutávamos o mesmo. Houve cumplicidade.

Parecias tão feliz! Quis tanto fazer-te mesmo feliz! Estava eu tão feliz!

Deixaste-me uma vez. Fraquejaste. Tinhas do outro lado uma vida também. Compreensível.

A seguir, fraquejaste de novo. Ao contrário. Voltaste. Não me parecias totalmente seguro, mas eu… eu queria tanto que desse certo…

E é este querer que mata tudo. Não devíamos ter quereres. Devíamos apenas viver.

E depressa te foste. Tão depressa vieste à minha vida como depressa te foste dela. Devia ter estranhado a simplicidade. Porque, no entanto, cá continuaste e continuas. E já nunca mais partirás dela, porque já nada depende de ti. Faças o que fizeres e como fizeres, está o universo no comando do que me és.

Enquanto o teu coração bater, estarei feliz. Porque, ainda que por mísero tempo, ele bateu por mim. Alimenta-me a tua existência. Completa-me saber de ti. Faz-me ter esperança na vida, a tua vida, a que escolheste ainda assim. Purifica-me a alma ver-te, por mais fugaz que seja a visão.

És-me como uma guloseima guardada para desfrutar no melhor e mais tranquilo momento do dia, como uma peça rara protegida para o mais significativo evento, como um oásis exposto… mas no firmamento. Um troféu valioso que só se ganha uma vez na vida, joia única da qual por nada me desfaço.

Só não morras, ouviste?! Só não partas deste mundo antes de mim! Livra-te de abandonar esta vida e me deixares cá.

Jamais haveria norte para mim… Jamais da mesma forma os cheiros sentiria, os sons ouviria. Jamais haveria qualquer luz, um regresso a fazer, algo a experimentar. Jamais haveria luar, aquele luar que tantas vezes foi a nossa companhia.

Livra-te! Livra-te sequer de tentar. Partires antes de mim é que nunca haveria de te perdoar.

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BÁRBARA MARCELO, a anónima
Toda ela é sentimento por diluir. Tem um trabalho comum, num qualquer escritório, faltando-lhe «o poder para limitar a linha intranquila e incansável do pensamento», que, tantas vezes, a leva a rabiscar. Gosta de pessoas simples, «com jeito cru e espontâneo». E da novidade da comida, da arte e dos encantos naturais, que encontra «neste passeio, sem destino, que é a vida». Tem um porto seguro. E adora a música e o mar. Aqui, entre nós: talvez, um dia destes, deixe de ser anónima.