Aquele quarto de hotel

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Fotografia © Jay Mantri | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Jay Mantri | Design © Laura Almeida Azevedo

Aquele quarto de hotel é um mundo! Um entra e saí de gentes e de rostos, que não se chegam a conhecer. Quantas vidas por ali já passaram?

Naquele espaço do tamanho de um abraço. Por vezes, mais frio do que qualquer sofrimento e sem o calor do sentimento. Quantas marcas ali ficam e contam momentos, que serão lembranças que fazem parte de uma história?

Histórias que foram vividas e, mais tarde, apenas serão recordações guardadas no armário da alma de quem as viveu.

Pelo espelho da casa de banho, já passaram tantas caras felizes e cabelos desalinhados. Depois de por eles terem passado momentos de felicidade, em que se esqueceram que estavam num quarto de hotel e também não se lembraram que existe um mundo lá fora. O quarto, naqueles instantes, pareceu-lhes o céu. Por isso, voaram juntos num sonho colorido, por onde a paixão os levou a verem as estrelas, enquanto estavam fechados entre quatro paredes.

São paixões que nunca serão romances. Amores que serão novelas de uma só página. As marcas do desejo que ficaram no lençol. O lençol que será lavado e secará sem ver o sol, tal qual este amor que nunca conhecerá a luz do dia. O lençol ficará sem o perfume da paixão, que nunca teve pés para andar, na estrada sem fim de duas vidas, e que apenas se cruzaram num quarto de hotel.

No rosto do amante, que vibrou de prazer, ficarão desenhadas as marcas do bâton vermelho. Marcas que, mais tarde, irão tingir a toalha branca que esperava por eles, dobrada sobre a cama, mas que com a urgência de se amarem acabou atirada para o chão, juntamente com as suas roupas, que não eram precisas para aquela festa.

Até no duche existirão vestígios dessa noite de paixão. A água, que escorreu sobre aqueles dois corpos para os refrescar da febre do amor, terá misturada com ela gotas do suor que deslizaram sobre as suas peles, que ardiam de paixão. Mas até essa água acabará por desaparecer dali. Irá misturar-se com águas que lavaram outras gentes deste mundo que desconhece o que se passou naquele quarto de hotel.

Aquele quarto de hotel sabe de todas as histórias que o mundo nunca viu. Já escutou tantas promessas de amor que ninguém irá cumprir. Tudo porque o tempo ali só conhece as horas em que se festeja o prazer e desconhece a alma de quem, no dia seguinte, acorda sabendo que aquela história será para esquecer.

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ANGELA CABOZ, a miúda gira
Nasceu em Tavira há 49 anos. Desde a adolescência que é uma apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cinema e pela música. Escreve sobre sentimentos e, nas palavras, reflete a maneira de ver e de sentir o mundo. Em 2014, realizou um sonho: a publicação do seu livro «À procura de um sonho». Desde então, tem participado em várias obras coletivas.