Fizeste tudo certo

Fotografia © Beatriz Rodrigues da Branca | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Beatriz Rodrigues da Branca | Design © Laura Almeida Azevedo

Fui a primeira. Antes de mim, não sabias o que fazer, bem sei. Esforçaste-te ao máximo por ser a melhor mãe do mundo. Confesso: foram muitas as alturas em que achei que só querias chatear-me e contrariar-me, para eu aprender que o “não” também existe. Hoje, ao fim de quase duas décadas, é o que mais te agradeço.

Obrigada por me construíres — sim, uma construção. As pessoas não vêm ao mundo já a saber tudo, e tu fizeste de mim a pessoa que sou hoje. Por tudo isso, agradeço-te do fundo do meu coração. Agradeço principalmente por nunca teres desistido — desistir é uma palavra que nem devia constar no dicionário —, nunca teres baixado sequer um dos braços perante a mínima adversidade.

Obrigada, mãe. Obrigada por nunca me teres dado tudo o que te pedia. Aprendi, acima de tudo, a não pedinchar coisas fúteis ou inúteis, às quais não daria a menor importância. Obrigada, mãe, por nunca me teres dado o game boy, que pedi por todos terem também, e tu me obrigares a brincar na rua e a esfolar os joelhos no quintal da avó. Tal como as marcas que ficavam nos joelhos, marcas há também na minha memória. Obrigada pelas Barbies que não recebi — afinal, hoje estariam a ganhar pó dentro daquele mísero cesto, não é? — e pelos livros que me compraste em vez delas. Afinal, de que me servem dezenas de bonecas se posso ter centenas de livros?

Obrigada por me ensinares o valor do dinheiro. Aquele envelope colado na parede em vez de dezenas de prendas debaixo da árvore de natal foi a prenda mais útil que eu podia ter recebido. «Daqui a uns anos vais perceber, filha, te garanto», e lá ficava eu toda mal-humorada porque aquela ia receber a Barbie cabeleireira ou o outro a Playstation. E eu, que era sempre a responsável e bem comportada, recebia um envelope com autocolantes preso à parede. Vim, anos mais tarde, a perceber que se tratava do meu extrato bancário. E, hoje, agradeço sinceramente o investimento que fizeram em mim. Obrigada também por me teres deixado ir trabalhar para saber o que custa ganhá-lo, mesmo que nunca tenhas acreditado que conseguia fazê-lo por mais de uma semana. Grande chapada de luva branca, mãe! Com este, já somam três verões. Afinal, também sou feita da tua fibra.

Obrigada por não me deixares sair. Lembro-me de estar no auge da minha adolescência e pedir para sair à sexta quando, à saída do liceu, combinávamos um café mais tarde. Nem era um copo, mãe. Era um simples café. Devem ter sido mais as vezes que ouvi uma resposta negativa do que aquelas em que realmente fui. Olhando para trás, foi uma das melhores coisas que fizeste: dar-me o “não”, que tanto me revoltava. Iam todos menos eu. «Tu não és toda a gente, filha!» Hoje, percebo. Hoje, sou eu a primeira a dizer que não se estou muito cansada ou se acho que não devo ir, mesmo que insistas que eu vá. Aprendi contigo que há a altura certa para tudo. E eu tantas saudades tenho de me deitar no teu sofá, coisa a que não dei valor, enquanto morava contigo.

Obrigada por, ao deixar a tua casa, não me teres feito a papinha toda. Graças a isso, já consigo desenrascar-me na cozinha ao ponto de não morrer à fome. Agradeço também a sopa — essa, sim, por mais que me esforce, nunca sairá igual à tua.

Obrigada pela tua exigência. Tornou-me exigente comigo própria — às vezes, até demais —, mas não deixa de ser algo positivo. Tornou-me exigente contigo também — por não exigires mais para ti. Obrigada por essa tua exigência passar também por me ensinar a gostar de café e de vinho: duas maravilhas do mundo!

Obrigada, mãe, por nunca teres desistido de valer por dois, de lutar por dois, de cuidar por dois, de amar por dois. És a melhor mãe que eu podia ter pedido, mesmo que nunca te possa agradecer o suficiente. Na verdade, nunca poderei. Podes ter a certeza de que fizeste tudo certo, para quem não sabia o que estava a fazer. Se há coisa em que acredito é que a sorte protege os audazes. E eu tanta sorte tenho em te ter. ♥️

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BEATRIZ RODRIGUES DA BRANCA, a controversa
Tem 19 anos e o mundo é ainda tão grande. Aspirante a farmacêutica, «um dia, talvez seja escritora também», diz. Ama os livros, o café, as ciências e as letras. Acredita que podemos ser o que quisermos — e podemos. Está aqui porque aceitou este desafio: superar-se a si própria.