Um amor que fala por si

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Ilustração © Laura Almeida Azevedo
Ilustração © Laura Almeida Azevedo

Entro na sala, mas nem dás por mim. Estás envolvido pelo que fazes, abstraído do mundo. Olhas vidrado para o computador. O teu corpo inclinado sobre a mesa, queixo apoiado sobre a tua mão esquerda, como tantas vezes fazes. Não estás nos teus dias.

Encosto-me à parede e fico a olhar para ti. Não quero perturbar-te. Aguardo…

Finalmente, acordas do teu transe e dás pela minha presença. Dás-me um ligeiro sorriso, insuficiente para desfazer o teu semblante que continua carregado. Sei que não estás bem, conheço-te. E tu sabes que eu sei. Por isso, nem disfarças.

Apercebo-me sempre de qualquer mudança no teu humor, por mais ténue que seja e, hoje em dia, já aceitaste que não tens como esconder-te de mim.

Mantenho os meus olhos presos nos teus. Sabes bem que estou a perguntar-te se te posso ajudar, mesmo que os meus lábios não se tenham mexido. Sabes bem que estou preocupada contigo.

Aproximo-me de ti. A tua cabeça segue-me os movimentos. Não queres falar, não fales. Sei perfeitamente que não estás para aí virado. Que tens o tempo. Conheço-te.

Mantenho o foco no teu olhar. Não o largo. É a única forma que tenho de chegar a ti. Sempre foi assim.

Afasto-te da secretária e sento-me no teu colo. Franzes a testa. Vejo a curiosidade no teu olhar. Não ofereces resistência. Pelo contrário, envolves-me a cintura com os teus braços.

Os nossos olhos são ímans que se mantêm presos. Passo a mão pelo teu rosto, pelo teu cabelo. Vou pontuando o teu rosto de tímidos e suaves beijos, olhando-te nos olhos a cada intervalo. Sem urgências, sem pressas. Uma carícia, um beijo, um olhar, uma carícia, um beijo, um olhar. O corpo pede mais, mas não é momento para isso. O meu coração bate com força, mas ignoro-o. Vagareza, suavidade e simplicidade dominam este momento. E é isso o que te quero dar, por agora.

Suspiras. Fechas os olhos. Finalmente, um sorriso. Encostas a tua testa na minha. Não querias conversas e respeitei-te. Mas queria que soubesses que estou sempre aqui para ti. E disse-to da melhor forma que sei, no silêncio de um amor que fala por si.

Aninhas-te no meu peito e pouso o meu queixo sobre a tua cabeça. E deixamo-nos ficar assim, abraçados. Apenas se ouvem as nossas respirações, a chuva lá fora e um amo-te quase mudo que sai dos meus lábios.

Nunca precisamos de muitas palavras. Temos a nossa própria linguagem. Conheço-te. Conheces-me.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.