
Reunidos à mesa. A essa mesa tão familiar, povoada de gente, de família, de amigos, de sentimentos. Neste dia especial, no dia dos teus anos. Comemos e rimos como se nada fosse. Como se o tempo tivesse voltado para trás. É imensamente gratificante ver-te sorrir. Esse sorriso encantador que enche o coração de quem te vê, de quem te ouve. Esse sorriso que ilumina toda uma sala. Essa gargalhada genuína de quem ama. A vida. Os seus. Que bom que é ver-te assim hoje.
Paras, repentinamente. E olhas-nos. A todos. Com esse teu olhar penetrante. Doce. Verdadeiro. Que nos lê. Nada precisas de dizer. Está tudo dito nesse olhar. Amas-nos. Para sempre. E isso nada nem ninguém te poderá tirar. Nos tirar. Nunca!
— Quem és tu para mim?
Eu respondo, com aquela calma que já me habituei a ter e olho nos teus olhos, como tantas vezes me pediste para o fazer.
— Sou o que quiseres que eu seja.
Sorris, confusa.
Sabes, minha querida, um dia, reuniste-nos aqui, e respondeste às nossas questões. Eu fui o primeiro a perguntar-te:
— E quando deambulares perdida por aí?
— Olha para os meus olhos. Vê o que te dizem! Tranca a porta da rua. Abre a porta dos sonhos. Diz-me que vivo num palácio encantado, rodeado de monstros lá fora e que para sair dele preciso de uma chave mágica e de um escudo protetor. A chave temos de a procurar e o escudo protetor és tu. Sem ti não posso sair. E, cá dentro, há todo um mundo para descobrir. Dá-me asas para voar neste chão encantado. Imagina comigo. Sonha comigo. Conta-me como foi aquele dia mágico, do encontro, do primeiro beijo. De um príncipe e de uma princesa, de um castelo, da eternidade. Envolve-me no teu manto de amor e liberta-me das amarras desta memória que me atraiçoa.
— E se entrares em paranoia, pensando que te escondemos ou tirámos algo?
— Olha nos meus olhos. Vê o que te dizem! Leva-me pela mão, nessa caça ao tesouro escondido. Lembras-te, filha? Deste jogo? E do quanto nos divertíamos? Lança-te nesta aventura e juntas percorreremos os sítios onde possa estar o que procuro. Diverte-te comigo! E se não encontrarmos nada, inventa um novo jogo e entretém-me.
— E quando estiveres agitada?
— Olha para os meu olhos. Vê o que te dizem! Quando eras bebé e tinhas fome ou sede, ou cólicas, o que fazias? Chamavas a minha atenção. Como? Chorando ou estando agitada. Terei eu fome, sede ou alguma dor? Estarei cansada? Ou simplesmente, estarei revoltada e frustrada por me aperceber que não tenho mais o controlo de mim, da minha vida, dos meus movimentos, do meu pensamento. Tal e qual como uma birra de criança pequena que quer brincar quando a obrigam a dormir. Não me confrontes. Diz, somente e docemente, que compreendes a minha revolta. Sê gentil. Reconforta-me. Conta-me uma história. Faz-me uma massagem. Leva-me a passear.
— E quando não me reconheceres, mana?
— Olha para os meus olhos. Vê o que te dizem! Olha-me com carinho. Sempre foste o meu confidente. O meu porto de abrigo. Conta-me as histórias que vivemos juntos. Abraça-me com força e diz-me que está tudo bem. Mostra-me as fotos das nossas viagens. E o quanto adorava conhecer novos sítios, novas pessoas. Brinda comigo a esses dias de festa. Conta-me como era e o que fazia. E os amigos, os teus e os meus que já eram os nossos, juntem-se a esse brinde e ergam bem alto o copo da amizade.
— E se ficares agressiva?
— Olhem para os meus olhos. Vejam o que vos dizem! Aceitem-me. Não me agarrem. Não me tentem mudar. Tranquilizem-me. Não consigo verbalizar o que sinto, o que quero. Sejam os ouvidos dos meus pensamentos. Sejam a minha voz. Leiam-me os meus textos do Desafio-te. Leiam-me os vossos! Laura, lês-me o Apeteces-me?
Os olhos. As lágrimas a quererem soltar-se. As tuas, as minhas, as de todos. E eis que surge uma nova pergunta:
— E quando fechares os teus olhos de vez?
Respondes, com a voz embargada, num último rasgo de lucidez:
(E tão lúcida te tivemos hoje. Afinal, tu é que fazias anos, mas, mais uma vez, foste tu que nos presenteaste.)
— Olhem para o vosso coração. E sintam o que os meus olhos vos diriam!




